03/05/2014

Você está feliz?

A felicidade é uma invenção de muitas narrativas. Nosso egocentrismo nos faz acreditar que a vida é o roteiro de um filme predeterminado, com um final feliz garantido. Vivemos em constante expectativa, esperando pelo fim de semana, pelas férias, pela aposentadoria, e projetamos a felicidade para um futuro que nunca se realiza.

Vamos conduzindo a vida por diversos caminhos. Algumas ações planejadas e outras aleatórias. E quando nos damos conta de que não há final feliz, a vida já se foi. Vivemos em função do que está por vir, e a felicidade se torna o eterno horizonte que jamais alcançamos definitivamente. A vida, simplesmente, é. E ela não é obrigada a ser feliz. A felicidade, por sua vez, é um sentimento desejado, fugaz, relativo, subjetivo e vários outros adjetivos.

Existem muitas definições e contradições, mas uma coisa é certa: todos querem ser felizes! Não existe ninguém no mundo que não procure ou deseje possuir esse sentimento! Quando jovem, eu ouvia uma certa rádio enquanto me arrumava para trabalhar, e havia um radialista que fazia a seguinte pergunta todos os dias: 'Ei! Você que está me ouvindo, me responde uma coisa: Você está feliz?

Uma pergunta simples, mas que escondia uma provocação! Logo cedo, sem rodeios! Minha mente ainda em estado letárgico, aguardando o café ficar pronto para dar uma animada, e aquele radialista inconveniente perguntando algo tão pessoal e desagradável! Eu não queria pensar sobre aquilo. Tinha de trabalhar. E quem trabalha não possui tempo para pensar na existência!

Ironias à parte, o tempo passou, e ainda me lembro daquela provocação matinal e me pergunto: O que significa, de fato, ser feliz, caro leitor?

Tento responder à minha maneira, mas ciente de que cada pessoa percebe e interpreta o mundo de acordo com sua conveniência ou conhecimento.

Quando se pergunta a alguém se ela é feliz, várias respostas são possíveis, conforme a sinceridade ou o grau de intimidade. Normalmente, algumas pessoas respondem tão rápido que passam a impressão de que a felicidade é uma obrigação e, aquele que não sente isso, um fracassado! Poucos possuem a sinceridade de assumir que podem estar infelizes em determinada fase da vida.

Acredito que ninguém consegue ser feliz integralmente. O mais apropriado seria “estar feliz” provisoriamente, na melhor das hipóteses. A felicidade é algo que se alcança, mas que logo se evapora em virtude das demandas ilimitadas da vida. Não é simplesmente como chegar ao alto de uma montanha e ser feliz para sempre, como num conto de fadas.

A vida é dura e feita de uma sucessão de eventos, preocupações, inseguranças, ansiedades, dificuldades, e a lista não tem fim. Logo que alcançamos um objetivo difícil, sentimo-nos felizes por um tempo, mas este sentimento de contentamento logo se esvai, reiniciando uma nova corrida de ratos rumo à felicidade. Uma busca sem fim!

E quando a felicidade depende da infelicidade do outro, podemos chamar isso também de felicidade? De certa forma, sim, pois a 'felicidade' do predador é a 'infelicidade' da presa, por mais estranho que possa parecer. E a felicidade do ladrão que rouba o cofre cheio de dinheiro de um aposentado e compra um imóvel? Podemos considerar que ele se encontra feliz por ter tido sucesso? Infelizmente, a sua felicidade é a tristeza da vítima.

Durante a nossa vida, muitos transmitem sua receita ou caminho da felicidade. Pior são aqueles que querem impor a sua como única e eterna verdade! Alguns apontam para a montanha mais alta e dizem que, para ser feliz, há necessidade de subir, subir, subir até alcançar o cume e, depois, descer e, novamente, subir, subir, subir em outra montanha... Semelhante ao trabalho de Sísifo, personagem da mitologia grega, cujo castigo era empurrar uma pedra até o lugar mais alto da montanha, de onde ela rola de volta, e ele tem que novamente empurrar a pedra sucessivamente. É a roda da vida representada pela carreira, dinheiro, status, sucesso... Uma eterna busca para alcançar o topo...

Outros apontam a felicidade em outro mundo. Um mundo perfeito, maravilhoso e feliz. É a esperança em outra 'vida' com rios de mel e músicas harmoniosas. Um mundo idealizado, sem doenças e sofrimentos. Porém, existe um pequeno detalhe: tem que morrer para ser feliz! E aí reside um problema com essa ‘lógica’: ninguém quer morrer. Outro ponto é que, contraditoriamente, consideram a vida humana como a mais perfeita 'criação' do universo. Acho isso muito estranho, pois se somos tão perfeitos, por que nossa vida não é o suficiente? Projetam-se outras vidas com tudo aquilo que nos falta ou causa sofrimento. No mínimo, um desprezo total pela vida atual.

Há quem diga que a felicidade está no isolamento de um mosteiro ou convento. Uma fuga antecipada da vida. Acredito que não seja uma boa alternativa, mas respeito a opção, pois certos isolamentos sejam saudáveis. Isolar dos ruídos, das compras, do tumulto, do trânsito, da fumaça, da falsidade... A vida agitada na cidade tem deixado muita gente com a esperança de encontrar a felicidade no meio do mato, longe de tudo. É o 'mosteiro' particular de cada um. O problema é que neste campo idealizado não existe segurança. Viver isolado atualmente é tornar-se presa fácil para a bandidagem, além de dar muito trabalho. Além disso, viciamos nas facilidades da cidade, apesar de todos os seus problemas.

Existe também a 'felicidade de fotografia'. Quando comparamos as fotografias da atualidade com aquelas de nossos antepassados, em preto e branco, onde a família se reunia em volta do patriarca, percebemos alguns detalhes interessantes. Antigamente, se chamava retrato, e os semblantes eram sombrios e os olhares tristes, talvez reflexos de uma vida dura no campo. Hoje, exibe-se uma alegria contagiante, mas desconfio se representa mesmo o que parece. Ou seria apenas um truque estético para parecer feliz diante da sociedade? Reconheço, também, que um sorriso na foto é bem mais atraente para registro, mesmo que não corresponda à realidade.

Existe outro tipo de felicidade saudosa, muito comum com a idade avançada, onde as pessoas mais idosas lembram o passado com nostalgia e comparam a situação atual com sua juventude. Quase sempre, dirão que eram mais felizes. Supervalorizam o passado e as pequenas alegrias, mas que são percebidas apenas depois que o tempo já passou. Um dia, li que na velhice, nosso cérebro realiza uma espécie de filtro e 'apaga' eventos negativos e dificuldades vividas! Ainda bem, seria muito triste ficar lembrando todas as tristezas, lutas e decepções...

Sabe aquela felicidade percebida apenas quando se perde algo? Exemplos: saúde, emprego, namorada etc. Somente percebemos a felicidade quando não vivemos mais aquele momento. Às vezes, nem éramos tão 'felizes' assim, mas a situação em que nos encontramos pode passar a sensação de que antes era melhor. É a comparação do ruim com o péssimo. O ruim ainda é melhor do que o péssimo. Normalmente, quando estamos inseridos num contexto, não possuímos uma boa capacidade de avaliação. Basta perder, para percebermos que éramos felizes e não sabíamos.

Como percebemos, 'felicidade' é uma palavra criada com vários significados, e palavras carregam conceitos sobre os quais raramente paramos para refletir, apesar de usá-la com frequência.

Há gente que se julga feliz por ter muitos amigos. Há gente que tem amigos e não é feliz.

Há gente que sonha em ser feliz tendo muito dinheiro para comprar tudo o que desejar. Há gente que tem muito dinheiro e não é feliz. Não estou fazendo apologia à pobreza, longe de mim. Dinheiro é bom, necessário e adoramos. Existe uma frase que costumo dizer: prefiro ser um rico com saúde a um pobre doente.

Há gente que sonha em se apaixonar para ser feliz. Há gente que se casou com sua paixão e mesmo assim não é feliz!

Há gente que sonha em ter um filho e acredita que isso a fará feliz. Há muita gente que possui um filho e não é feliz. E muita gente sem filhos que também não é feliz!

Há gente que espera a aposentadoria para ser feliz. Há muita gente aposentada e não é feliz!

Há gente gorda que diz que se fosse magra seria feliz. Há muita gente magra e infeliz!

Há gente que acredita que a beleza a tornaria feliz. Há muita gente bela e infeliz!

Há gente que pensa que se fosse promovido seria feliz. Há muita gente promovida e infeliz!

Podemos concluir que alcançar certas coisas na vida não garante a felicidade de ninguém. A felicidade não existe num local ou estado específico. Mas essas coisas são necessárias para nossa sobrevivência e aperfeiçoamento, e devem ser buscadas. É assim que evoluímos e sentimos prazer por alcançar cada objetivo aqui e agora, sem fantasias e sonhos impossíveis.

Assim seguimos do berço ao túmulo, cada um empurrando a sua pedra.

Nietzsche, em sua época, fez a seguinte pergunta e eu a reproduzo aqui de forma adaptada: Se fosse possível, você teria coragem de viver tudo de novo, aquilo que você já viveu, tim-tim por tim-tim, cada momento de sua vida?

Sua resposta medirá o grau de satisfação de sua vida.

Alex Gil em 03/05/2014

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