A
felicidade é uma invenção de muitas narrativas. Nosso egocentrismo nos faz
acreditar que a vida é o roteiro de um filme predeterminado, com um final feliz
garantido. Vivemos em constante expectativa, esperando pelo fim de semana,
pelas férias, pela aposentadoria, e projetamos a felicidade para um futuro que
nunca se realiza.
Vamos
conduzindo a vida por diversos caminhos. Algumas ações planejadas e outras
aleatórias. E quando nos damos conta de que não há final feliz, a vida já se
foi. Vivemos em função do que está por vir, e a felicidade se torna o eterno
horizonte que jamais alcançamos definitivamente. A vida, simplesmente, é. E ela
não é obrigada a ser feliz. A felicidade, por sua vez, é um sentimento
desejado, fugaz, relativo, subjetivo e vários outros adjetivos.
Existem muitas definições e contradições, mas uma coisa é certa: todos
querem ser felizes! Não existe ninguém no mundo que não procure ou deseje
possuir esse sentimento! Quando jovem, eu ouvia uma certa rádio enquanto me
arrumava para trabalhar, e havia um radialista que fazia a seguinte pergunta
todos os dias: 'Ei! Você que está me ouvindo, me responde uma coisa: Você está
feliz?
Uma pergunta simples, mas que escondia uma provocação! Logo cedo, sem
rodeios! Minha mente ainda em estado letárgico, aguardando o café ficar pronto
para dar uma animada, e aquele radialista inconveniente perguntando algo tão
pessoal e desagradável! Eu não queria pensar sobre aquilo. Tinha de trabalhar.
E quem trabalha não possui tempo para pensar na existência!
Ironias à parte, o tempo passou, e ainda me lembro daquela provocação
matinal e me pergunto: O que significa, de fato, ser feliz, caro leitor?
Tento responder à minha maneira, mas ciente de que cada pessoa percebe e
interpreta o mundo de acordo com sua conveniência ou conhecimento.
Quando se pergunta a alguém se ela é feliz, várias respostas são
possíveis, conforme a sinceridade ou o grau de intimidade. Normalmente, algumas
pessoas respondem tão rápido que passam a impressão de que a felicidade é uma
obrigação e, aquele que não sente isso, um fracassado! Poucos possuem a sinceridade
de assumir que podem estar infelizes em determinada fase da vida.
Acredito que ninguém consegue ser feliz integralmente. O mais apropriado
seria “estar feliz” provisoriamente, na melhor das hipóteses. A felicidade é
algo que se alcança, mas que logo se evapora em virtude das demandas ilimitadas
da vida. Não é simplesmente como chegar ao alto de uma montanha e ser feliz
para sempre, como num conto de fadas.
A vida é dura e feita de uma sucessão de eventos, preocupações,
inseguranças, ansiedades, dificuldades, e a lista não tem fim. Logo que
alcançamos um objetivo difícil, sentimo-nos felizes por um tempo, mas este
sentimento de contentamento logo se esvai, reiniciando uma nova corrida de
ratos rumo à felicidade. Uma busca sem fim!
E quando a felicidade depende da infelicidade do outro, podemos chamar
isso também de felicidade? De certa forma, sim, pois a 'felicidade' do predador
é a 'infelicidade' da presa, por mais estranho que possa parecer. E a
felicidade do ladrão que rouba o cofre cheio de dinheiro de um aposentado e
compra um imóvel? Podemos considerar que ele se encontra feliz por ter tido
sucesso? Infelizmente, a sua felicidade é a tristeza da vítima.
Durante a nossa vida, muitos transmitem sua receita ou caminho da
felicidade. Pior são aqueles que querem impor a sua como única e eterna
verdade! Alguns apontam para a montanha mais alta e dizem que, para ser feliz,
há necessidade de subir, subir, subir até alcançar o cume e, depois, descer e,
novamente, subir, subir, subir em outra montanha... Semelhante ao trabalho de
Sísifo, personagem da mitologia grega, cujo castigo era empurrar uma pedra até
o lugar mais alto da montanha, de onde ela rola de volta, e ele tem que
novamente empurrar a pedra sucessivamente. É a roda da vida representada pela
carreira, dinheiro, status, sucesso... Uma eterna busca para alcançar o topo...
Outros apontam a felicidade em outro mundo. Um mundo perfeito,
maravilhoso e feliz. É a esperança em outra 'vida' com rios de mel e músicas
harmoniosas. Um mundo idealizado, sem doenças e sofrimentos. Porém, existe um
pequeno detalhe: tem que morrer para ser feliz! E aí reside um problema com
essa ‘lógica’: ninguém quer morrer. Outro ponto é que, contraditoriamente,
consideram a vida humana como a mais perfeita 'criação' do universo. Acho isso
muito estranho, pois se somos tão perfeitos, por que nossa vida não é o
suficiente? Projetam-se outras vidas com tudo aquilo que nos falta ou causa
sofrimento. No mínimo, um desprezo total pela vida atual.
Há quem diga que a felicidade está no isolamento de um mosteiro ou
convento. Uma fuga antecipada da vida. Acredito que não seja uma boa
alternativa, mas respeito a opção, pois certos isolamentos sejam saudáveis.
Isolar dos ruídos, das compras, do tumulto, do trânsito, da fumaça, da
falsidade... A vida agitada na cidade tem deixado muita gente com a esperança
de encontrar a felicidade no meio do mato, longe de tudo. É o 'mosteiro'
particular de cada um. O problema é que neste campo idealizado não existe segurança.
Viver isolado atualmente é tornar-se presa fácil para a bandidagem, além de dar
muito trabalho. Além disso, viciamos nas facilidades da cidade, apesar de todos
os seus problemas.
Existe também a 'felicidade de fotografia'. Quando comparamos as
fotografias da atualidade com aquelas de nossos antepassados, em preto e
branco, onde a família se reunia em volta do patriarca, percebemos alguns
detalhes interessantes. Antigamente, se chamava retrato, e os semblantes eram
sombrios e os olhares tristes, talvez reflexos de uma vida dura no campo. Hoje,
exibe-se uma alegria contagiante, mas desconfio se representa mesmo o que
parece. Ou seria apenas um truque estético para parecer feliz diante da
sociedade? Reconheço, também, que um sorriso na foto é bem mais atraente para
registro, mesmo que não corresponda à realidade.
Existe outro tipo de felicidade saudosa, muito comum com a idade
avançada, onde as pessoas mais idosas lembram o passado com nostalgia e
comparam a situação atual com sua juventude. Quase sempre, dirão que eram mais
felizes. Supervalorizam o passado e as pequenas alegrias, mas que são
percebidas apenas depois que o tempo já passou. Um dia, li que na velhice,
nosso cérebro realiza uma espécie de filtro e 'apaga' eventos negativos e
dificuldades vividas! Ainda bem, seria muito triste ficar lembrando todas as tristezas,
lutas e decepções...
Sabe aquela felicidade percebida apenas quando se perde algo? Exemplos:
saúde, emprego, namorada etc. Somente percebemos a felicidade quando não
vivemos mais aquele momento. Às vezes, nem éramos tão 'felizes' assim, mas a
situação em que nos encontramos pode passar a sensação de que antes era melhor.
É a comparação do ruim com o péssimo. O ruim ainda é melhor do que o péssimo.
Normalmente, quando estamos inseridos num contexto, não possuímos uma boa
capacidade de avaliação. Basta perder, para percebermos que éramos felizes e
não sabíamos.
Como percebemos, 'felicidade' é uma palavra criada com vários
significados, e palavras carregam conceitos sobre os quais raramente paramos
para refletir, apesar de usá-la com frequência.
Há gente que se julga feliz por ter muitos amigos. Há gente que tem
amigos e não é feliz.
Há gente que sonha em ser feliz tendo muito dinheiro para comprar tudo o
que desejar. Há gente que tem muito dinheiro e não é feliz. Não estou fazendo
apologia à pobreza, longe de mim. Dinheiro é bom, necessário e adoramos. Existe
uma frase que costumo dizer: prefiro ser um rico com saúde a um pobre doente.
Há gente que sonha em se apaixonar para ser feliz. Há gente que se casou
com sua paixão e mesmo assim não é feliz!
Há gente que sonha em ter um filho e acredita que isso a fará feliz. Há
muita gente que possui um filho e não é feliz. E muita gente sem filhos que
também não é feliz!
Há gente que espera a aposentadoria para ser feliz. Há muita gente
aposentada e não é feliz!
Há gente gorda que diz que se fosse magra seria feliz. Há muita gente
magra e infeliz!
Há gente que acredita que a beleza a tornaria feliz. Há muita gente bela
e infeliz!
Há gente que pensa que se fosse promovido seria feliz. Há muita gente
promovida e infeliz!
Podemos concluir que alcançar certas coisas na vida não garante a
felicidade de ninguém. A felicidade não existe num local ou estado específico.
Mas essas coisas são necessárias para nossa sobrevivência e aperfeiçoamento, e
devem ser buscadas. É assim que evoluímos e sentimos prazer por alcançar cada
objetivo aqui e agora, sem fantasias e sonhos impossíveis.
Assim seguimos do berço ao túmulo, cada um empurrando a sua pedra.
Nietzsche, em sua época, fez a seguinte pergunta e eu a reproduzo aqui
de forma adaptada: Se fosse possível, você teria coragem de viver tudo de novo,
aquilo que você já viveu, tim-tim por tim-tim, cada momento de sua vida?
Sua resposta medirá o grau de satisfação de sua vida.
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