27/02/2018

Sonhei que voava!


Tenho uma vida banal e, à noite, sonho. Humanos sonham.
Sonhei novamente que voava — um sonho impossível, mas de suavidade arrebatadora.
Recordo com prazer cada detalhe dessa aventura de olhos fechados e mente leve.

Tomava distância e corria como um velocista em direção ao nada.
Batendo os braços com força, para cima e para baixo, até que meus pés se desprendiam do chão e eu ganhava altura.
Suspenso no ar, corpo estendido, abria os braços suavemente e deslizava como um pássaro.
A gravidade deixava de existir; eu me estabilizava no ar e avançava sem obstáculos.

Voava seguindo o traçado das ruas e, do alto, observava as pessoas distantes.
Elas corriam e me acompanhavam com curiosidade.
A sensação era intensa, agradável, libertadora.

Não costumo atribuir significados especiais aos sonhos, mas talvez este revele um desejo inconsciente de liberdade, de escapar ao peso das preocupações e obrigações.
Não sei se há relação, mas admito que a hipótese faz algum sentido.

Assim encerro a minha bobagem de hoje.

08/02/2018

Noite miteriosa


Entrei em casa e ela não me notou.

Estava quieta, olhando-me de soslaio.
Não se aproximou, permaneceu imóvel.
Algo estranho acontecia.

Nenhuma palavra, apenas olhos que me evitavam.
— O que poderia ter acontecido? — pensei.

Aproximei-me, tentando decifrar aquele ar misterioso.
Ela continuava calada. Nenhuma pista.
— O que eu fiz de errado?

Abri a geladeira, estiquei as mãos e escondi o gesto, só para aguçar sua curiosidade.
Finalmente, me olhou com desejo.
Seus olhos brilhavam.
Encostou-se lentamente em minha perna, como quem seduz.

Não resisti e sussurrei:
— Sofia, tenho algo que você adora.

Abri o sachê de carne e despejei o conteúdo em sua vasilha.
Sofia devorou como uma louca e, feliz, me olhou.

Ela me ama.