A luz estava acesa e os meus olhos permaneciam fechados.
Era uma manhã fria do mês de maio e eu estava aquecido entre
panos.
Mal conseguia mexer os braços e o ambiente era silencioso.
Abri os olhos lentamente e vi uma luz brilhante.
Um rosto feminino me olhou com ternura...
Tudo começou assim.
Tudo na vida tem um começo.
O meu foi dessa forma, eu acho, não me lembro.
A maioria dos eventos em nossa vida segue um roteiro
automático e mal notamos.
Não escolhi meu nome, aliás ninguém escolhe.
Mas isso não tem importância.
Nessa fase não tomamos nenhuma decisão.
Alguém cuida da gente.
Não poderia ser diferente.
Somos muito frágeis.
Chega um tempo na vida que precisamos decidir tudo.
Andar com os próprios pés, como diz o ditado.
Mas isso leva um certo tempo.
Nessa época não temos opção.
À vezes lá na frente continuamos sem opção...
Apenas seguimos a programação biológica.
Nasci sem dentes. Normalmente se nasce sem dentes.
E essa informação é irrelevante.
Aliás, quase tudo aqui escrito não tem importância.
Escrevo apenas por prazer.
Do jeito que surge na mente.
Tudo bruto.
Mas por que estou escrevendo isso?
Ninguém tem interesse nisso.
Eu sei disso, mas talvez sirva
de curiosidade para meus filhos ou netos!
Meu pai não deixou nada escrito.
Nem meu avô.
Gostaria de saber o que eles pensavam.
Via de regra, o interesse pelas pessoas é proporcional ao
seu "poder".
Não tenho poderes, sou banal.
Mas existem exceções. Ainda bem.
Vou escrever sem me preocupar...
Deixarei meus dedos teclarem minhas bobagens até o ponto
final.
Sem censura, sem regras.
Aqui não preciso seguir normas.
A vida já tem normas demais.
Como eu dizia, naquela época era dependente de tudo.
E foi assim por muito tempo.
Mamava todos os dias.
De segunda a segunda, inclusive Natal.
Não sentia falta de um cardápio variado.
Nem sabia o que era cardápio.
Nesse tempo não ficava esperando o final de semana.
Nem o feriado. Nem as férias.
Minha vida era automática.
Mas isso eu não sabia.
Vida de cachorro é assim todo dia.
E eles são felizes.
Não existe calendário.
Aliás a vida de todo mundo é automática.
Dormia, acordava, mamava, sujava a fralda e dormia.
No outro dia, acordava, mamava, sujava a fralda e dormia de
novo.
Mamãe limpava minha fralda.
Minha vida era monótona.
Mas eu não sabia o que era monotonia.
Tudo ia bem. Eu acho.
Eu era ignorante.
Ou melhor, menos ignorante.
Ser ignorante tem as suas vantagens.
Vivia todos os dias com o mesmo roteiro.
E foi assim por um bom tempo.
Um dia mamãe me deu papinha.
Acabei me acostumando.
Acho que nem notei. Era o que tinha.
Não reclamava. Reclamar de que?
Meus dentes cresceram.
Comia com colher.
Comia de tudo.
O tempo passou mais um pouco.
Estava na escola.
Tinha um monte de gente que eu não conhecia.
Aprendi escrever e ler.
Conheci gente que chamamos de colega.
Cresci mais um pouco.
Cheguei aos dezesseis anos.
Nesse tempo era chamado de jovem.
Entrei para estudar no SENAI.
Carteira assinada e salário mínimo.
Comecei exatamente nesse prédio aí da foto..