04/01/2026

O Café

Vera colocou a caneca e o pão sobre a mesa. O café estava quente, mas Tarso apenas olhava para o vapor subindo.

— Você precisa comer — disse Vera.

— Não sinto fome.

— É apenas o desjejum, Tarso. O dia começou.

Tarso desviou o olhar da caneca para a janela. O céu estava azul, mas para ele, era apenas uma fresta de luz sem importância.

— Eu acordei morto, Vera.

Ela parou com a mão na alça do bule. Olhou para ele, procurando um sinal de ironia. Não encontrou.

— Você está respirando — ela disse. — O seu coração está batendo. Eu consigo ouvir daqui.

— Isso é a biologia. É o sentido literal. Disso eu sei.

— E o que mais existe?

— As cores — ele respondeu baixo. — O ímpeto. A urgência de chegar a algum lugar. Hoje, eu não tenho nada disso. Acordei sem pressa, porque não há para onde ir quando se está assim.

Vera sentou-se à frente dele.

— É uma sensação. Ela passa.

— Não é uma sensação — disse Tarso, e sua voz era seca como papel velho. — É a única verdade possível para hoje.

03/11/2025

Ser Importante

Quando somos jovens, costumamos imaginar que seremos pessoas importantes no futuro. Naquele momento, nosso conceito de “importância” está associado à conquista do diploma, ao sucesso na carreira, ao poder, ao status, à admiração, ao prestígio e ao dinheiro. Com o tempo, algumas dessas expectativas não se concretizam, e buscamos outras formas de nos sentirmos relevantes. Procuramos manter a chama acesa até o último suspiro.

Mas afinal, o que significa ser importante? Ou melhor: importante para quê? E, sobretudo, importante para quem?

Existem muitas maneiras de se tornar “importante”: ter filhos, ser um bom pai, marido, filho, amigo, profissional... Qual delas é a mais significativa? Depende das escolhas de cada um. Cada pessoa estabelece sua própria escala de valores, que é sempre pessoal e passageira.

Depois da família, talvez o “ideal” seja encontrar equilíbrio entre as ambições, mas o critério é individual. A mídia e a sociedade, no entanto, bombardeiam constantemente uma ideia de sucesso distorcida e perigosa, que altera os valores do que realmente importa e aponta quase sempre em uma única direção.

Não pretendo dar conselhos, até porque não quero assumir o papel de ancião “cheio de sabedoria”. Primeiro porque não sou bom nisso. Depois, porque se tivesse seguido todos os conselhos que já ouvi ou li, seria um sujeito perfeito — e sabemos que a perfeição só existe no mundo das ideias. Além disso, falar e escrever é sempre mais fácil do que viver.

Algumas coisas têm grande importância para certas pessoas e nenhuma para outras. Isso reforça a ideia de que a importância é relativa. Viver é muito mais complexo do que seguir receitas prontas.


Noite infeliz

 Há dias em que a única verdade possível é: eu acordei morto. Não um morto em sentido literal, mas um morto para as cores, para o ímpeto e para a urgência da vida. A noite foi pesada, uma daquelas sessões sombrias que ferem a alma e desanimam a carne, permeada por pensamentos absurdos sobre a solução mais radical para todos os problemas: parar de existir. Todos.

Algumas coisas não devem ser pensadas, menos ainda escritas. Se a mente fosse um diário aberto, o diagnóstico seria imediato: doente.

Mas é preciso manter a aparência para o mundo ideal. É preciso oferecer aquilo que eles querem receber como mercadoria: a imagem de que está tudo bem. É o contrato social da sobrevivência: ignorar a ferida, receber a ingratidão e fazer de conta que o navio segue em águas calmas. O mundo é um grande mercado. Cada um com o seu problema, seu preço, sua dor. E a dor do outro, convenhamos, custa muito pouco. Nossas dores, ah, essas são as mais caras.

O silêncio é, então, o melhor remédio? Pode ser que seja, mas serve, principalmente, como armadura. É o escudo contra o exército de especialistas remunerados que recebem para tratar exatamente o problema que eles próprios sentem e não conseguiram resolver. Receitar a solução para os outros é fácil; difícil é tratar a própria dor.

Existem diversas fugas, todas com efeito rápido. A maior delas, a mais sedutora, é a fuga definitiva: deixar de existir. Essa, sim, cura tudo e imediatamente. Mas para isso é necessária a coragem. Requer uma dose altíssima de racionalidade, ou de sua ausência total. Não sei qual das duas.

A natureza, no entanto, foi programada para resistir até o fim. O corpo, esse leão velho e teimoso, agarra-se à vida, mesmo que ela esteja sem cores e insuportável. Por enquanto, resta apenas seguir em frente. A curiosidade ainda pulsa, fraca, mas presente.

O tempo cura? Tenta-se acreditar. Mas a experiência diz o contrário: cura nada. Apenas arquiva. Temos que seguir adiante, mesmo sabendo disso. Inventamos distrações para suportar a realidade crua e vestimos máscaras para não aumentar o sofrimento dos outros com os nossos.

Força, velho leão. Respire. Tudo passa, e a vida é, no fim, tudo isso: a soma do dia sombrio e da teimosia em aguardar o próximo outono.


OBS: Escrito num dia qualquer de 2019 e republicado agora, fora do contexto original.

02/11/2025

A Arrogância do "Querer é Poder"

Na juventude, a arquitetura do mundo parece ser de vidro e concreto. Todos os projetos são possíveis. O céu é o limite, e o chão, esse lugar monótono, é reservado aos fracos.

Somos, admitamos, arrogantes, prepotentes e idealizadores. Imaginamos que, para se conseguir qualquer coisa, basta querer. É a fase do "querer é poder".

Haha!

Acredita-se convictamente nessa frase. Jovens são convictos, e essa convicção é perigosa. Nietzsche já alertava que as convicções são as inimigas mais perigosas da verdade do que as mentiras. Eu também já fui um desses. Acreditava que o pensamento movia o mundo e que quanto mais forte o meu "querer", mais rápido alcançaria o que eu desejasse. Para o jovem, tudo é possível: o sucesso, a beleza, o futuro, a riqueza.

Até que, um dia, Cronos nos lembra que tudo será reavaliado. Acontece com todo mundo. Tudo tem um prazo de validade, até mesmo os sonhos mais coloridos.

O jovem pensa que entende de velhice sem nunca ter ficado velho. É como querer falar de filhos sem ter filhos, ou como aconselhar um casal sem nunca ter sido casado. O mundo se divide em bonito ou feio, uma espécie de maniqueísmo ditado, talvez, pelos hormônios. O jovem olha para o velho como um derrotado, sem objetivos.

Não é nada disso, querido jovem. Um dia, você também será velho.

Conforme o tempo avança, aceitamos que nem tudo é possível, e, assustadoramente, quase tudo é impossível. É a consciência de que somos limitados e finitos. A luta no futuro será pautada por outras necessidades. Manter o que se conquistou, afinal, também consome uma energia tremenda. O tempo é curto para grandes projetos. Nessa época, é melhor reunir todas as forças, garantir o chão sob os pés e parar de sonhar com as nuvens.

Eu também tive projetos não realizados e, pior, interrompidos. Não terminei de escrever o meu livro, não aprendi a nadar e, obviamente, não virei astronauta.

Sobre o livro, na verdade, eu quase terminei. Inesperadamente, parei faltando pouco para o fim. Às vezes, me pergunto o porquê. Acho que perdi o interesse, ou talvez a convicção.

Ninguém conheceu o meu personagem e sua pacata vida. Ele existe apenas na gaveta, no meu caderno e na minha mente. Seu nome é Zara Crotone.

Por que Zara? Ah, não tem um motivo especial. Zara foi uma homenagem ao Zaratustra, do filósofo do martelo. Quanto ao sobrenome Crotone, foi uma homenagem a uma cidade da Itália. Nunca estive lá, mas o imaginei vivendo naquela terra de Leonardo da Vinci.

E por que estou falando de Zara? Não sei. Estava falando sobre projetos interrompidos...

Às vezes, penso em terminar a sua história, que existe apenas na minha cabeça. Mas para quê? Quase ninguém mais gosta de leitura. O mundo se tornou rápido demais para se perder tempo com histórias inventadas. Além disso, histórias devem ser contadas para quem gosta de ouvir. Hoje existe muita boca para pouco ouvido. E haja boca suja. Ademais, não quero ser lido depois de morto.

Bem, preciso concluir esse tema. Iniciei escrevendo sobre jovens e acabei falando do velho Zara.

Mas por que o rumo de nossa prosa mudou?

Ah, lembrei-me! Zara também foi um jovem cheio de sonhos. Ele queria contar a sua história. Mas, pensando bem, quem quer saber de Zara?

Fico por aqui, chega de escrever histórias inventadas para ninguém.

A Trilha da existência

Lembro-me do Outono de um ano qualquer, quando anotei essa verdade que me atingiu com a força de um soco lírico. Eu estava no café da manhã, o sol entrava oblíquo pela janela, e a frase simplesmente se impôs: "Todos os dias acordamos e não conseguimos viver a vida como queremos."

É o mantra silencioso da maturidade. O reconhecimento humilde de que o mapa que desenhamos na juventude foi substituído pela bússola da sobrevivência.

Tomamos o café, sim, e seguimos resignados pela trilha aberta na mata da existência. Não há mais tempo para forjar novos caminhos ou sonhar com atalhos exuberantes. Caminhamos, nós, os sobreviventes do sistema, pela terra marcada. Com o tempo, já nem desviamos mais de cada contorno, e nossos pés, endurecidos pela vida, conhecem de cor cada pedra, cada raiz escondida.

A resignação, percebo, é a armadura do cotidiano. É ela que nos permite seguir em frente, mesmo sabendo que a mata, antes densa de possibilidades, é agora uma paisagem de repetições. A trilha não é mais um caminho, é um sulco.

Nosso encontro diário com este chão duro de terra vermelha afundará lentamente. O peso das repetições. O peso dos "deveria ter feito". O peso dos "não deu". E a cada passo, a cada dia que se repete, a trilha se aprofunda um pouco mais.

Até que, um dia, essa trilha aberta se transforme numa cova profunda, íntima e definitiva.

Não há tragédia na constatação, mas apenas a aceitação. O valor da vida não está em escapar da trilha, mas em perceber que, mesmo no sulco da rotina, fomos nós quem a marcamos com nossos passos. E se a cova é o destino inevitável, que ela ao menos guarde a memória do esforço, do café tomado e da resignação necessária que nos permitiu caminhar todos os dias.


O Peso dos Projetos Inacabados

O tempo, esse vilão intransigente e implacável, não apenas passa; ele nos lembra de que somos finitos, empilhando na soleira da porta os projetos que não conseguimos cumprir. E não foram poucos.

Não fiz a faculdade que desejei, e o diploma hoje é uma mera ficção. Não terminei o curso de inglês, de modo que a fluência ficou presa no sotaque. O teclado Yamaha ainda mora no quarto, um monumento silencioso àquelas horas de escalas que nunca se transformaram em melodia. E, claro, não concluí a escrita do meu livro. Gastei muitas horas da minha vida nestes projetos, mas fui invariavelmente vencido pela prioridade de sobreviver ao sistema, e a vontade de continuar, aos poucos, murchou.

É difícil assumir um projeto abandonado. Primeiro, a gente posterga, imaginando sua realização num futuro longínquo, até que o tempo, com seu chicote invisível, nos lembra da interrupção. A vontade e o prazer continuam ausentes, e chega o dia em que, mais velhos, finalmente aceitamos a derrota e contabilizamos mais um risco de fracasso na parede da vida.

Pensando bem, não devemos sofrer por isso. É imperativo dar um ponto final nas pendências para nos sentirmos mais leves. Aliás, livrar-se do que é inútil deve ser um exercício constante em nossas vidas. E isso vale para coisas, pensamentos e, sim, até pessoas.

Quanto ao livro inacabado, para que o tempo não seja totalmente perdido, pretendo deixar as páginas que escrevi aqui no Blog Banal. Mesmo faltando conclusões e revisões, seria uma forma de deixar o projeto como legado. Talvez chegue a um descendente curioso, a um amigo ou a quem sabe, a qualquer pessoa com tempo ocioso que tenha chegado acidentalmente até aqui.

Não tem valor literário algum, adianto. Se o faço, é por um pouco da vaidade que me sobrou e por pena de jogar fora esse tempo gasto. Está aí, o meu legado: a confissão de que a vida se fez em outros caminhos, e o alívio de aceitar a leveza que nasce da desistência honesta.

Outono de 2020.

Alex Gil Rodrigues

O último adeus

Para ser lido no futuro de minha inexistência.

Datado de 2 de novembro de 2025, este registro é um paradoxo temporal: um adeus escrito no passado, endereçado a quem me lê neste instante em que já sou ausência. Sinto o tempo se esvair, percebo a vida tornar-se leve, talvez no silêncio de um sono iminente. A suspeita recai sobre o coração, onde uma dor suave anuncia a despedida — ou outra razão qualquer, não sei ao certo, mas isso pouco importa.

E agora, concedo-me o salto. O mergulho no grande silêncio...

Eu morri.

Vivi a medida que me foi dada. Fui artífice do tempo, dedicando a maior parte da existência ao labor e ao sustento. Honrei os ciclos essenciais: casei-me, deixando em meus filhos a mais preciosa das heranças. Este manuscrito, que deveria ser segredo, é agora lido por você, que me encontra no futuro, enquanto eu, no presente da eternidade, jamais recordarei que existi.

Hoje, descanso. E o termo é exato, definitivo. A troca é completa: não há mais o fervor da alegria, nem a visão grandiosa do mar, mas, em compensação, nenhuma das amarras terrenas subsiste.

O chicote das preocupações, a sombra da insegurança, a pontada da fome, o peso do cansaço, o nó da ansiedade e a tensão do estresse — tudo se dissolveu. Sou pura e eterna liberdade, intocável. Nada me abala, nada me atinge. Retornei à condição original de ser antes do ser, antes de me fazer carne e consciência. Esta, e somente esta, é a verdadeira e inabalável paz eterna.

Deixo minha palavra de gratidão a quem foi meu pilar: à esposa que, com firmeza, me ajudou a atravessar os vales difíceis; aos filhos, que são a prova viva do meu legado; à mãe, que teceu a vida e os cuidados que me trouxeram até aqui; e a cada uma das poucas e importantes almas que conviveram comigo e mereceram minha sincera consideração.

Este é o fim da minha história. Não há mais páginas, nem notas de rodapé. E se o costume dita um “até amanhã”, a eternidade sussurra: “Até nunca mais.” Simplesmente porque uma vida foi, para mim, o suficiente.


Tudo é possível?

Existe uma alquimia cruel na passagem do tempo. Na efervescência da juventude, vestimos a certeza de que a vida é um horizonte aberto, onde a expectativa de que "tudo é possível" nos serve de bússola e escudo. O futuro, então, é um mapa em branco, à espera apenas da nossa audácia.

Com o avançar dos anos, contudo, esse mapa ganha relevo, e descobrimos os acidentes geográficos que não escolhemos. Situações inesperadas – os desvios, os golpes laterais – surgem para desequilibrar o que pensávamos ser um arranjo estável. A saúde, essa fundação silenciosa, começa a emitir seus primeiros ruídos, e o corpo, antes um veículo dócil, revela-se uma máquina com prazo e desgaste. Problemas de toda ordem brotam como ervas daninhas em um jardim antes ordenado.

Diante desse cenário, a existência se bifurca em duas estradas de difícil trânsito. A primeira exige a luta contínua, a teimosia em mover a montanha, combinada com a sabedoria estoica de aceitar aquilo que não se tem controle. É um exercício de força e humildade. A segunda, mais sombria, propõe a rendição aos vendavais, uma entrega passiva que fatalmente compromete a saúde mental, transformando a mente em um campo de batalha permanente.

O alento, esse pequeno e precário bálsamo, surge na frase gasta: "Tudo isso passa." Sim, mas o passar é lento, e a travessia é a carga mais pesada. Confessamos: os dias se tornam mais densos, a leveza da expectativa juvenil é substituída pelo peso da realidade. Chegam momentos em que a sensação de desamparo é total, em que a alma não encontra um porto seguro, nem um lugar para onde ir, apenas a vastidão vazia à frente.

No fim, a vida se resume a um veredito inflexível. Despidos da ilusão de escolha radical, descobrimos nossa verdadeira e inelutável condição: temos apenas que seguir. Estamos condenados a essa marcha, quer ela se desenrole sob a bandeira da alegria ou sob o manto da tristeza. Feliz ou infeliz, não importa o nosso estado interior ou a paisagem externa, a única certeza é a sentença de seguir em frente.

Licença para a ociosidade

 O orvalho frio do domingo escorre pelas vidraças, transformando a paisagem externa em um borrão aquarelado. E o milagre acontece: a licença para a ociosidade é concedida.

Que confissão patética, dirão os engenheiros da produtividade: buscar na meteorologia a absolvição para o simples ato de não fazer. Vivemos sob um regime onde a quietude se transformou em desvio moral, onde o “sem culpa” é a mais alta conquista de um dia chuvoso. Não basta o descanso; ele precisa ser justificado pelo clima, pela força maior, pela impossibilidade logística de perseguir os ritos frenéticos da semana.

Esta pausa, fria e molhada, é um pequeno e subversivo funeral para os nossos "dias automáticos". Aqueles dias onde a vida é reduzida a uma lista de tarefas concluídas, onde a excelência se mede pela falta de tempo. E aqui estamos, nós, prisioneiros libertos pelo mau tempo, a descobrir que a verdadeira arte de viver talvez resida na recusa sutil.

Na recusa de que o valor humano esteja atrelado à performance. Na recusa de que a felicidade seja um prêmio a ser conquistado e não um estado a ser simplesmente habitado.

O abraço do frio e a ausência de compromissos não são apenas confortáveis; são um ato filosófico. Uma homenagem à vida na sua forma mais livre e, ironicamente, na sua expressão mais plena. Porque é no silêncio da chuva e na quietude do ócio que, por vezes, a voz da verdadeira felicidade, tão abafada pelo ruído do cotidiano, finalmente encontra espaço para sussurrar.

Domingo de chuva

 O calendário insiste que este é apenas mais um dia, mas a fina cortina d’água que cai lá fora teima em conferir-lhe um título mais nobre: Domingo de Chuva. E, com ele, surge a mais rara das permissões: a de ser, voluntariamente, inútil.

Não há sol a gritar por produtividade, nem a claridade exigente que condena a permanência no sofá. O cinza que veste a janela é um convite sereno e irrecusável à inércia. É o dia em que a ociosidade se veste de virtude, e a preguiça se torna a mais alta forma de civilidade consigo mesmo.

É uma pausa melancólica e, paradoxalmente, vital. Uma rendição bem-vinda à cadência lenta, um ato de desobediência contra a engrenagem febril dos "dias automáticos e pouca vida". Nesses dias, a alma anda de metrô, sem tempo para sequer mirar a paisagem. Mas hoje, não. Hoje, ela está sentada à janela, sorvendo o vapor do chá e observando a dança das gotas que escorrem.

Ah, se o tempo pudesse se moldar sempre a essa frequência! Que privilégio seria homenagear a vida com a leveza de quem não tem metas urgentes, nem compromissos irrevogáveis além da própria contemplação.

A verdadeira felicidade, afinal, pode não estar no turbilhão da conquista, mas sim nesse pequeno e luxuoso instante de liberdade sem culpa. É a epifania de que, para sentir-se pleno, basta, às vezes, não fazer absolutamente nada, envolvido apenas pelo casulo de lã e pelo sussurro da chuva.

12/10/2025

Final de domingo

Eis que se finda mais um domingo.

A Roda, implacável, não cessa o seu movimento. Segunda-feira, Terça-feira, Quarta-feira... Chegando, afinal, à Quinta-feira, Sexta-feira, e outra vez a Sexta-feira, qual alento breve.

Verão, Outono, Inverno. A sucessão das estações não nos concede trégua. Chuva, Sol, Frio, Calor. A natureza é a única a se permitir a mutabilidade.

Ano Novo, vida nova? É a vida, porventura, reduzida a laborar, dormir e laborar? Existimos apenas para descansar a fim de trabalhar, e trabalhar para merecer o descanso?

A fadiga é o único prêmio que nos é conferido ao findar de cada jornada. Despertamos para resolver os problemas que nos assaltam; dormimos apenas para reunir forças e enfrentar novas tribulações. Os problemas da mente atormentada e os revesses do mundo palpável.

O Relógio, este tirano de ponteiros, não cessa a sua marcha.

Feliz Aniversário, Feliz Natal! Feliz Ano Novo! — Fórmulas ocas, repetidas ad infinitum.

Faltará muito para que chegue, enfim, a Sexta-feira? Faltará, Diletos, muito para que tudo se finde de uma vez?