Gritos que matam
Antes que eu desapareça.
Esses versos são de autoria de Alex Gil
Madrugada de sábado.
Disparo da cama sonolento em direção ao banheiro.
Estico a mão na torneira e aciono a alavanca que libera o jato de água.
Um pequeno inseto negro, semelhante a um besouro, sobe pela louça úmida da pia.
Minha mão, obedecendo a um impulso inexplicável, direciona o fluxo contra ele.
A operação é bem-sucedida. Não comemoro, tampouco me entristeço.
Lavo as mãos de forma automática, fecho a torneira e retorno à cama.
O relógio avança pela noite silenciosa.
De volta ao mesmo ritual, encontro novamente o inseto, insistente, tentando escalar a superfície lisa.
Mais uma vez, a corrente o empurra ao fundo da pia até desaparecer.
Adormeço pela segunda vez.
Ao amanhecer, sigo ao banheiro.
Lá está o inseto, agitando freneticamente as patas, sem sucesso.
Pela primeira vez reflito sobre aquele instante e, do alto de minha “onipotência”, determino:
— Este inseto merece viver.
A mesma mão que tentou eliminá-lo o transporta até um local seguro, à sombra do muro.
— Tua força de vontade te salvou. Mereces viver. Vá em paz.
Alex, 17/12/2017
Recentemente, conversei com uma pessoa próxima que acredita em anjos. Perguntei por que esses supostos anjos não atuaram na tragédia da creche de Janaúba, quando um funcionário ateou fogo em crianças e em si mesmo, matando oito pequenos, a professora, além dele próprio, e deixando vinte e quatro pessoas internadas.
As respostas, naturalmente, não me convenceram.
Sou uma pessoa cheia de defeitos e limitações, mas certamente arriscaria minha vida para salvar aquelas crianças das chamas. Não suportaria assistir ao sofrimento tendo o poder de evitar e, ainda assim, nada fazer.
Quando um evento termina bem, logo se atribui à ação de forças sobrenaturais, como se tudo estivesse sob “controle”.
Quando termina mal, reina o silêncio, surgem desculpas contraditórias ou a desonestidade intelectual.
Definitivamente, meu cérebro funciona de outra forma.
E confesso: estou com pouca paciência para explicações convenientes.
Papai, ainda estou aqui.
Quanto tempo não te vejo!
Parece que foi ontem o seu último dia.
Jamais esquecerei.
Eu tinha apenas quatorze anos quando você se foi para sempre.
É duro dizer “para sempre”, mas a vida real é assim.
Muitos afirmam que um dia nos encontraremos, mas não alimento essa ilusão.
Às crianças contam que, ao morrer, as pessoas se transformam em estrelas no céu.
Entretanto, aprendi nos livros de ciência que estrelas não são pessoas.
Papai, eu cresci.
Aprendi que devo aceitar a finitude da vida como um processo natural e inevitável.
Quando você nos deixou, eu ainda acreditava em fantasias reconfortantes.
Mas, durante a sua ausência, precisei buscar explicações racionais sobre o mundo.
A literatura e alguns autores me ofereceram respostas mais coerentes às minhas necessidades.
Do céu, recebi apenas silêncio — e disso não reclamo.
A vida é assim, e pronto.
Infelizmente, tenho de aceitar que nunca mais nos encontraremos, por mais fascinante que seja a ideia contrária.
Hoje interpreto a vida de outra forma, mas a culpa não é sua.
Aceito a beleza do jardim sem as fadas, como disse Douglas Adams, e estou bem assim.
Sei que você jamais lerá estas palavras, nem saberá como foi nossa vida depois que partiu.
Mas, se pudesse lhe “dizer” algo, seria para agradecer por tudo.
Você fez muita falta, e ainda sinto saudades.
Uma pena não estar mais aqui, papai.
A culpa não é sua.
Não foi fácil viver sem você, mas sobrevivemos.
Guardo muitas memórias da sua existência e gostaria que estivesse almoçando conosco.
Depois que você se foi, enfrentamos muitas dificuldades, mas hoje estamos bem.
Mamãe ficou viúva com três filhos adolescentes e fez de tudo para nos criar com dignidade, honestidade e poucos recursos.
Na época, com quatorze anos, eu não me conformava com sua partida.
Pensava que a vida era controlada por um Deus.
Com o tempo, descobri que não há ninguém no controle, que os eventos não são programados e que, portanto, a culpa não é de ninguém.
Eu sou pai, e jamais deixaria três crianças em dificuldades sem o seu pai.
De todas as carências, a sua presença foi a maior.
Hoje sei que a natureza é cega, indiferente e implacável às nossas necessidades.
Os humanos criam fantasias e outros mundos para suportar melhor a vida e não aceitar a finitude.
Sei também que a natureza não é justa nem injusta: somos nós que criamos conceitos, classificamos e rotulamos.
O roteiro da vida não é escrito por ninguém; a história de cada um resulta de eventos e escolhas ao longo da existência.
Não temos controle sobre grande parte da vida e tentamos sobreviver fazendo o melhor que podemos — nem sempre —, trabalhando incessantemente em busca de uma vida satisfatória.
Papai, dizem que nada acontece por acaso.
Eu não acredito nisso.
Muita coisa acontece por acaso, todos os dias.
Inclusive mortes prematuras como a sua.
Como já disse, a natureza não tem culpa.
Todos somos vítimas.
A culpa não foi sua.
Aliás, a culpa não é de ninguém.
A morte faz parte do processo da vida.
Lembro que você nunca me deu um tapa, mas a vida, com o tempo, me deu alguns — e isso também faz parte do aprendizado.
Preciso encerrar este texto, antes que pensem que não estou bem de saúde mental, escrevendo para um pai que já não existe.
Mas isso não importa.
Por alguns instantes, pude me lembrar de você e sentir gratidão por ter existido, por ter me dado amor e sua carga genética.
Ainda sinto muito a sua falta, mesmo depois de tanto tempo.
Teria tantas coisas para conversar, mas nossa história foi interrompida e nunca conseguiremos colocar os assuntos em dia.
Sinto muito, papai.
Mas a culpa não é sua.
Beijos imaginários de seu primogênito,
Alex
Fazia muito tempo que eu não entrava em um ferro-velho, mas a vida dá voltas e, por necessidade, acabamos voltando a esses lugares.
Hoje quero registrar uma história recente — talvez ninguém se interesse, mas ainda assim gosto de escrever.
Meu filho teve o carro furtado enquanto trabalhava. Felizmente conseguimos recuperá-lo, abandonado na vizinha Limeira, interior de São Paulo. Isso só foi possível porque o motor quebrou durante a fuga do ladrão.
O carro é um Volkswagen Gol antigo, e precisei procurar um bloco em ferro-velho, já que comprar um novo seria inviável.
O ambiente continua o mesmo de três décadas atrás, quando eu buscava peças para meu velho fusquinha: nenhuma evolução, nenhuma organização. Peças espalhadas e amontoadas por todos os cantos — no piso, nas paredes, no balcão, onde quer que o olhar alcançasse.
Cumprimentei o sujeito do balcão e perguntei se havia um bloco de motor para Gol 1.0. Do alto de sua preguiça, sentado num banco de madeira, apenas levantou o braço e apontou para os fundos da pocilga.
Fui sozinho até o local indicado. Como era de se esperar, não consegui identificar nada no meio daquela bagunça. Esperava, ao menos, que ele me acompanhasse.
Depois de alguns minutos procurando às cegas, desisti. Ao sair, o sujeito reapareceu e perguntou:
— O bloco que você procura é para qual Gol?
— Para um Gol 1.0, 16 válvulas — respondi.
— Mas você não sabe se é Gol Bola, Geração 2, 3, 4, 5...?
— Não, eu não sei — respondi naturalmente.
— MAS VOCÊ NÃO CONHECE CARRO? — gritou, surpreso com minha ignorância.
Respirei fundo e me arrependi de ter entrado. Para ele, não conhecer as gerações do Gol era prova de idiotice.
E não parou por aí.
— Está vendo aquele carro ali? É um Gol Bola — ensinou o rei da sucata.
Seguiu transmitindo seu “valioso” conhecimento sobre modelos de carros, apontando veículos e explicando como se fosse um professor. Até que indicou um carro na calçada.
— Esse eu conheço bem — respondi irritado. — Afinal, é o meu. E perguntei se ele realmente me achava idiota por não saber diferenciar os tipos de Gol.
A conversa tornou-se insustentável. Fui embora com o “conhecimento” inútil adquirido, torcendo para que passem mais trinta anos antes de eu precisar entrar novamente em um ferro-velho.
Antes de terminar, registro uma reflexão: não tenho os talentos que gostaria, mas consigo fazer algumas coisas satisfatórias. Gostaria de ter outros dons, mas talento não depende de desejo.
Há quem escreva com maestria. Outros encantam ao tocar instrumentos. Alguns falam inglês com fluência invejável. Há quem pinte quadros ou esculpa obras extraordinárias. Outros possuem memória prodigiosa. Esses são talentos que eu gostaria de ter — muito mais do que saber as gerações de motores de Gol, conhecimento que nada acrescenta à minha vida.
Por hoje é isso.
Depois de algum tempo morando na cidade de Araras, tive a curiosidade de conhecer as várias salas da Biblioteca Municipal Martinico Prado.
O espaço é limpo e bem organizado. Para testar a disponibilidade de livros, perguntei à bibliotecária se havia obras de Nietzsche. Após consultar o sistema, informou que existiam apenas três: uma biografia, Nietzsche para estressados e Quando Nietzsche chorou. Nenhuma obra escrita pelo “filósofo do martelo”. Sem problemas — isso não diminui a importância do local.
Ainda bem que possuo muitos livros em casa, e talvez esse seja um dos motivos de ter demorado tanto para conhecer a biblioteca da cidade. Antes de me despedir, agradeci e perguntei se poderia tirar uma fotografia do ambiente, apenas como lembrança. A resposta foi lacônica: não.
Surpreso, questionei a razão da negativa. Ela explicou que havia muita gente “má intencionada” e, por isso, não era permitido. Argumentei que não via motivo para tal proibição, já que o espaço estava bem apresentado. Se fosse um museu, onde o flash pudesse danificar obras, até entenderia. Mas não era o caso. Reforcei que minha intenção era positiva, mas, firme, ela disse que eu precisaria de autorização especial da prefeitura para registrar imagens daquele ambiente público. É claro que desisti da fotografia.
Fiquei pensando: será que também precisarei de autorização para fotografar o Lago Municipal, o Parque Ecológico ou o caça Mirage em frente ao Ginásio Municipal? Estranho, não?
A história pode ser irrelevante, mas achei importante deixá-la registrada aqui no Blog Banal, como lembrança dos conceitos desta época.
Imagine que você acorda sonolento, abre os olhos e percebe estar em um lugar paradisíaco.
A temperatura é agradável, a visão deslumbrante, e uma sensação de bem-estar nunca antes sentida envolve o corpo.
Ao olhar em volta, nota a presença de outras pessoas, mas nenhum rosto familiar.
Mais adiante, grupos conversam animadamente, transbordando alegria e amizade.
Diante da solidão, você decide caminhar entre os jardins floridos, na esperança de encontrar algum parente ou amigo naquela manhã tão agradável.
Depois de muito procurar, percebe que não há ninguém conhecido naquele cenário deslumbrante.
É como estar em uma festa cercado de estranhos.
Apesar da beleza do lugar, nasce a necessidade de reencontrar aqueles que tornaram sua existência mais suportável, de compartilhar com eles tais sensações.
Mas, enfim, descobre que seus filhos, parentes e amigos não estão ali.
Ao contrário, encontram-se em um espaço terrível, marcado por calor insuportável e dor incessante — todos os dias, para sempre.
Nesse momento, alguém se aproxima para consolar:
— Não se preocupe com os seus. Você salvou a sua vida, e isso é o mais importante.
— Seja feliz eternamente. Seus filhos e amigos tiveram a mesma chance que você. Agora recebem o castigo que merecem. A culpa não é sua. Sorria: você conquistou o maior prêmio, a vida eterna.
Primeiro, pensei que o problema fosse a segunda-feira.
Depois, desconfiei que fosse o mês de maio.
Hoje percebo: o problema talvez seja a própria vida.
O celular desobediente despertou-me às 6h30. Que absurdo! Hoje é domingo e, por um lapso, esqueci de desprogramá-lo. Acordo cedo todos os dias, mas justamente hoje não queria ser lembrado pelo carrasco que me acompanha e dita o meu precioso e finito tempo. Tudo bem, acontece.
Com o passar dos anos, percebo que suportamos melhor a vida metódica, programada e cheia de normas. Não digo que a aceitamos — apenas que a suportamos.
Pensando bem, talvez eu exagere. No fundo, já me acostumei com o destino. Seria essa reconciliação o tal amor fati de que falava o filósofo do martelo?
A cama estava agradável, convidativa. Estiquei o braço e, com a ponta dos dedos, silenciei fulminantemente o meu tirano, com a satisfação de quem vence o inimigo.
Ah, se eu tivesse o poder de silenciar tudo aquilo que não quero com apenas um toque no gatilho da justiça!
Alex, Outono de 7/5/2017
Missão cumprida.
O corpo caminha lentamente pelos corredores, acompanhado por diálogos internos e pela eterna esperança de dias melhores.
Anoitece rápido.
O crachá, na ponta dos dedos, aguarda liberar a saída provisória — chave que abre algemas invisíveis.
No estacionamento, a moto solitária e molhada espera como um cavalo mudo e obediente.
É sexta-feira, o trânsito se adensa.
Do lado de fora, rostos estranhos, olhos arregalados atrás dos capacetes, avançam com mais vontade pelo asfalto.
Os ponteiros do relógio giram sem cessar.
O tempo e a necessidade são algemas invisíveis.
Sigo entre o asfalto, a cama e a catraca.
Anoitece de novo.
E sigo, mais uma vez, entre o asfalto, a catraca e o asfalto...
Eterno retorno.
Alex, 05/05
Amizade é uma coisa boa, mas nem sempre é possível ter amigos.
Desde criança, sempre tive poucas amizades. Meus contatos se resumiam aos irmãos, primos e, eventualmente, algum vizinho. Na adolescência, morando no interior do Rio, o aglomerado de casas e pessoas próximas favorecia, em tese, a aproximação. Porém, mesmo nesse ambiente fértil, eu não conseguia fazer parte de grupos maiores que duas ou três pessoas. Minha interação com os outros sempre foi limitada e circunstancial.
O tempo passou e hoje vivo praticamente para o trabalho, minha pequena família, um cachorro, um gato, meus livros e a internet. No trabalho, as amizades duram o tempo exato da carga horária. São alianças de interesses mútuos dentro das paredes corporativas: companheirismo, respeito, colaboração e até humor. Mas a pressa e o foco não deixam espaço para conversas mais elaboradas, reflexivas e tranquilas sobre a vida. Tudo ocorre na velocidade dos ponteiros do relógio. Na vizinhança, também não tenho amigos — apenas compartilhamos a mesma rua e o mesmo ar.
Não critico essas alianças. Elas são importantes: ajudam, sustentam, protegem e possibilitam a sobrevivência. Na selva do mercado, talvez tenham mais valor do que a amizade tradicional. Durante minha existência, tive muitos conhecidos, poucos amigos e boas alianças.
Na juventude, eu gostava de sair para as festas tradicionais da cidade. Era a diversão possível, sem dinheiro e sem carro. Lembro que tinha apenas dois colegas na mesma situação: saíamos juntos para conhecer meninas, franguinhos de granja estreando na arte da paquera, com vergonha, pouco dinheiro e muitos hormônios.
Com o tempo, tornei-me independente. Os amigos se foram e aprendi a gostar de ir sozinho aos lugares. Escolher o próprio caminho não tem preço — é a sina dos espíritos livres. Em minha cidade natal, ainda tenho um amigo de longa data, que visito uma vez por ano nas férias. Mas a distância não favorece o contato frequente, e a vida segue.
Conhecidos, tenho muitos — herdados do bairro, da escola ou do trabalho. São relações casuais e breves. No geral, sabemos pouco uns dos outros: o local de trabalho, o bairro onde moram, o time de futebol. Resumindo, descubro apenas se estão vivos, doentes, velhos ou mortos.
Outro dia li Rubem Alves sobre envelhecer. Ele dizia que chamar a velhice de “melhor idade” só pode ser invenção de um demônio zombeteiro disfarçado de anjo. Velhice é quando passamos a ser tratados como “objeto de respeito” e não mais de desejo. E o que ele queria não era respeito, mas desejo.
Voltando à amizade, classifico-a em três tipos: circunstancial, interesseira ou motivada pela admiração. O termo parece ultrapassado; talvez precisemos reinventá-lo. O maior exemplo da banalidade da amizade hoje é o Facebook.
Na juventude, buscamos rebanhos. Com a maturidade, o cansaço do trabalho, o peso da idade e os interesses diferentes, inevitavelmente nos afastamos. Veja como os velhos são solitários. O segredo talvez seja o autoconhecimento, a autoestima e aprender a gostar da própria companhia. Fácil dizer hoje; só saberei se funciona quando chegar lá.
Na rede social, já tive mais de 300 “amigos”. Reduzi para cerca de 100. Não virei inimigo dos excluídos, mas percebi indiferença. Alguns nem me cumprimentavam na rua. Se você está numa rede de interação, o mínimo esperado é interação. Publicar pensamentos e ver pessoas apenas monitorando em silêncio, como cadáveres ou espiões, não me serve.
Hoje me sinto bem com poucos amigos. Gosto da vida (às vezes não), da literatura e da filosofia. Pessoas solitárias compensam o déficit social com atividades intelectuais, e isso pode ser tão prazeroso quanto relações que nada acrescentam. De vez em quando vou a um churrasco da empresa e até gosto. Quem me lê pode pensar que sou hermético, mas não é verdade. Em certas circunstâncias, sou receptivo e bem relacionado.
Nos livros encontrei companhia: autores que conversam comigo, ensinam e me fazem pensar. No mundo virtual, grupos de discussão espalhados pelo Brasil também oferecem boas trocas intelectuais.
Hoje me conheço melhor e me suporto. Não forço amizades em troca de likes ou atenção. Descobri que bons relacionamentos dependem de afinidade e circunstâncias.
Moro no interior de São Paulo há oito anos e percebo que, em geral, as pessoas daqui não gostam de conversar. Na cantina do trabalho, puxo assunto para evitar o silêncio, mas muitos respondem de forma lacônica ou saem apressados, como o coelho branco de Alice no País das Maravilhas. Há exceções, claro, e alguns sabem conversar bem nos breves intervalos. Mas o relógio, carrasco do tempo, não perdoa.
Gosto de conversas que continuam na cabeça mesmo depois que a pessoa se afasta. Isso é sinal de que valeu a pena. Se não deixam nada e ainda nos fazem sentir pior, melhor nem ter encontrado. Relações boas devem ser saudáveis e satisfatórias.
Ufa! Sem querer, virou textão. Essas eram as banalidades que estavam na minha mente quando sentei diante do notebook. O assunto pode continuar em outra ocasião, porque ainda tenho muito a dizer sobre esse tema demasiadamente humano. Mas fica para depois. Poucos terão paciência para ler até aqui.
Até a próxima!
Finalmente retomei a leitura de Nietzsche. Há algum tempo seus livros repousavam na estante. A primeira constatação é que essa leitura não avança como as demais: certos conceitos precisam ser ruminados, exigem calma e interpretação antes de se virar a página.
Minha primeira tentativa ocorreu no ano passado, com Assim falou Zaratustra. Comecei pelo mais difícil e, ao chegar à metade, percebi que não estava absorvendo. Faltava-me uma base intelectual para compreender seu pensamento. Abandonei a obra, consciente de que seria preciso preparar-me melhor e retornar no tempo certo.
Gosto de filosofia, e Nietzsche sempre me apontou uma direção compatível com meus próprios questionamentos. Descobri que não se lê Nietzsche: aprende-se com ele. Sua leitura requer paciência e fundamentos prévios. Para isso, recorri a literaturas de apoio e a vídeos que me ajudaram a compreender o alemão.
Outro ponto essencial é a escolha do tradutor e da editora. As melhores edições são da Companhia das Letras, traduzidas por Paulo César de Souza, que recebeu dois prêmios Jabuti por seu trabalho com Nietzsche.
Hoje não vou registrar o que estou aprendendo. Isso virá aos poucos, sem pressa. Apenas adianto: estou diante de uma preciosidade que me faz pensar.
Todos os dias despertamos e não conseguimos viver a vida como desejamos.
Tomamos o café e seguimos resignados pela trilha aberta na mata da existência.
Caminhamos, vezes incontáveis, sobre a terra marcada, até que já não desviamos dos contornos que endurecem os pés pela vida.
Nosso encontro diário com este chão duro de terra vermelha afundará lentamente, até transformar-se, um dia, em cova profunda, íntima e definitiva.
Alex, no outono feliz de 2017
Em certa ocasião, dirigia meu carro no retorno de um shopping em Piracicaba, a 60 km da cidade onde moro, quando algo muito desagradável ocorreu.
As condições meteorológicas eram excelentes, a pista tranquila, e a velocidade em torno de 100 km/h. Viajávamos serenos pelo lado direito, sem obstruir quem desejasse ultrapassar pela esquerda.
De repente, uma carreta sem carga surgiu em alta velocidade, passando rente à lateral do carro. O barulho foi assustador. Em seguida, forçou a entrada à minha frente, obrigando-me a virar o volante com rispidez para a direita e reduzir a velocidade, evitando a colisão.
A carreta seguiu disparada. Buzinei, pisquei o farol em sinal de indignação. Ele respondeu com o alerta traseiro antes de desaparecer pela estrada.
Por alguns minutos, analisei se havia cometido alguma falha na condução. Não encontrei explicação: sua pista estava livre, nada o obrigava a entrar à minha frente.
Naquele instante tenso, desejei ardentemente que algo ruim acontecesse ao motorista, para que “pagasse” pelo risco em que colocou minha família. O odiei por alguns quilômetros, com o sangue fervendo em minhas artérias.
Depois, fiquei pensando: seria essa reação prova de que sou uma pessoa má, incapaz de perdoar, ou apenas alguém que não tem sangue de barata?
Assim registro mais uma memória banal, enquanto a vida segue.
Imagine dois animais ligados por uma corda de sisal.
Considere que eles gostam de permanecer próximos, apesar da corda.
Ainda que a corda estabeleça a união entre ambos, sua ausência não desfaz o vínculo.
Com o tempo, se a relação for satisfatória, a corda se torna inútil.
Triste a relação em que a corda é o único motivo que mantém dois seres próximos.
Você já pensou se a sua relação depende de uma corda?
Qual é o nome da sua corda?
Você já ouviu a frase: “Fazer o bem sem olhar a quem”? Tenho certeza que sim.
Ontem, uma pessoa próxima — chamarei de Angelino — viveu uma experiência que ilustra bem essa máxima.
Voltava para casa dirigindo quando, de repente, um carro à sua frente atropelou um cachorro e seguiu sem prestar socorro. Angelino percebeu que o motorista havia notado o acidente, pois desviou bruscamente o volante após a batida.
Imediatamente, Angelino parou, desceu e puxou o animal para a calçada. Ao acariciar sua cabeça, notou a coleira de couro com o nome Brutus e um número de telefone gravado. Tentou ligar várias vezes, mas ninguém atendeu.
Sem desistir, buscou o contato da ONG SAPA (Sociedade Ambientalista Protetora dos Animais), em Araras. Vinte minutos depois, o socorro chegou, prestou os primeiros cuidados e levou o cachorro para tratamento. Angelino voltou para casa preocupado, mas com a consciência tranquila por ter feito o que era certo.
À noite, já de pijama e prestes a dormir, o telefone tocou. Eram 22h. Do outro lado, uma voz grave disparou:
— ALÔ! QUEM ESTÁ FALANDO?
— Aqui é Angelino, pois não?
— Fiquei sabendo que você atropelou o meu cachorro, seu safado!
Angelino tentou explicar que não havia atropelado, mas sim socorrido o animal. O homem não quis ouvir. Disse que a SAPA havia passado seu telefone, que tinha testemunhas e que no dia seguinte iria à sua casa cobrar as despesas.
O telefone foi desligado com violência. Do outro lado, Angelino permaneceu deitado, olhos arregalados no teto, sem conseguir dormir.
Pensando sobre o que ouvi a respeito do “amor” ao trabalho...
Quando comemos um pão quente, não sabemos quem é o padeiro, nem temos interesse em sua vida. Apenas apreciamos, pagamos e, se gostamos, voltamos a comprar.
Do lado do padeiro, também não há interesse na vida de quem consome. Ele faz o pão para sobreviver e vender mais pão. O prazer pode até existir, mas não necessariamente por amor ao produto.
Esse sentimento é irrelevante na qualidade e nas relações comerciais. Um fornece, o outro consome.
O único amor presente nessa relação é o amor próprio: o esforço que retorna em forma de necessidades atendidas, conforto ou satisfação.
Não é preciso amar o produto para que seja bem feito. Exigir “amor” nesse tipo de relação é romantizar o que não precisa de romance.
Assim penso, por hoje.
A agulha do toca-discos repousa suave e desliza pelos sulcos macios do vinil,
como dois corpos em movimentos contínuos, delicados e circulares.
O ar se enche de prazer, inundado por uma música lasciva e revigorante,
enquanto os olhos se fecham lentamente, entregues ao êxtase sonoro.
Alex
Hoje, 05/03/2017, é um dia importante. Aliás, todos os dias deveriam ser importantes, porque a vida é breve.
Inicio uma nova fase em minha rede social. Houve um tempo em que eu queria ter muitos amigos: aceitava convites de qualquer pessoa que respirasse o mesmo ar ou tivesse algum interesse em comum. Achava que isso era bom, mesmo que a pessoa fosse apenas uma sombra ou um espectador silencioso.
Agora, minha filosofia é simplificar e intensificar tudo que realmente agrega e vale a pena. O número de “amigos” ainda pode aumentar, porque me arrependi de ter excluído algumas pessoas. Talvez nem tenham notado, ou talvez eu tenha lhes prestado um favor, já que não sou tão simpático e costumo expor pensamentos que incomodam.
Hoje estou com menos de 100 contatos (já tive quase 300). Se você está lendo, é porque faz parte dessa nova fase, e acredito que sua presença é importante. Peço desculpas a quem excluí injustamente — não sou perfeito. Ninguém é. Perfeição, aliás, é um ideal inventado para fugir do mundo real.
Por favor, não compartilhem esta publicação. Seria constrangedor encontrá-los na fila do pão.
Após ouvir a reclamação de um amigo de Barra Mansa sobre os trens que paralisam a cidade todos os dias, imediatamente um filme passou pela minha cabeça.
Barra Mansa, cidade querida, minha história, família e amigos.
É triste perceber que, na política local, as promessas apenas se revezam enquanto o tempo corre. Cresci vendo o trem parado, acidentes, gente perdendo a perna, carros arrastados. Vi maquetes grandiosas, vídeos de projetos para o pátio de manobras, candidatos dizendo “Mudar para ser feliz” ou “Por uma Barra Mansa bonita e melhor”. E o tempo foi passando.
Chega um momento em que só os mais jovens ainda acreditam, porque não conhecem a história e não se cansaram. O enredo é sempre o mesmo: surge o candidato novo com soluções para tudo, criticando o anterior. O povo acredita e elege. O novo começa dizendo que tudo está errado — e com razão. Forma sua turma de confiança, distribui cargos, pede paciência e esperança.
As obras não acontecem. O novo diz que não há recursos, pede mais apoio. O relógio não para. A culpa é do anterior. A próxima eleição se aproxima. Enquanto isso, pintam os arcos da ponte, o meio-fio, fazem operação tapa-buraco, prometem empregos na Flumisul, organizam carnaval e festinhas. Até a próxima eleição, pedindo mais quatro anos ou oferecendo outro candidato com as mesmas promessas.
Pessimista, eu? Não. Apenas já assisti esse filme muitas vezes e acabei decorando.
Desculpe contar o final.
Sem carro, precisei comprar batatas num mercadinho de bairro. Esses lugares têm suas vantagens: oferecem quase tudo para emergências domésticas — cola para PVC, torneira, carrapeta, filtro de barro, moringa, carne, pão, vinho de qualidade duvidosa e, claro, batatas. Muitas batatas.
Na fila, imóvel como um saco de batatas, ouvi a conversa de duas senhorinhas. Não foi bisbilhotice: estava ali, aguardando, com boa audição e um Blog Banal pronto para registrar qualquer bobagem.
— Oi, fulana, quanto tempo!
— Pois é, faz muito tempo mesmo!
— Eu fico o dia inteiro em casa e só saio para vir ao mercado.
— Eu também. Cuido dos meus netos para minha filha trabalhar.
— Onde você mora?
— Perto da borracharia. E você?
— Na mesma casa há trinta anos, perto da escola.
— E a família?
— Moro sozinha. Não tenho filhos. Meu marido morreu há sete meses...
Os olhos se encheram de lágrimas. A amiga a consolou com palavras que todos dizem:
— Não fique assim, ele com certeza está melhor do que a gente.
— É que ele foi meu primeiro e único namorado. Sinto muito a falta dele. Minha vida ficou triste e vazia.
— Fique tranquila, meu bem. Deus sabe todas as coisas.
Quando comecei a refletir sobre essa frase, a atendente atrás da balança interrompeu:
— Próximo!
Peguei meu saco de batatas, pesei, paguei e segui. Salvo pelas batatas.
Deitado numa maca fria, olho para o alto enquanto vários eletrodos se fixam ao meu peito.
Minutos antes, uma assistente — enfermeira ou sei lá o quê — não perguntou meu nome.
Barbeou meu tórax nu como quem maneja uma enxada.
Espirrou gel como se fosse catchup.
Levantou meu braço com rispidez, como se fosse o membro de um cadáver.
Seu rosto era grave, a voz mecânica me orientava subir à maca como um cão adestrado.
Definitivamente, delicadeza não era o forte daquela mulher.
E pensar que tudo isso foi pelo convênio médico.
A “autópsia” chegou ao fim.
Estou bem.
Por que insistimos em fazer parte de algo que não nos cabe, não nos agrada, e não temos coragem de romper?
Por que aceitamos histórias que já não nos servem?
Quantas vezes seguimos adiante quando a melhor decisão seria parar e se distanciar?
Relacionamentos que não agregam devem ser rompidos. Não falo apenas dos amorosos, mas também dos de fachada e das redes sociais.
Se evitamos até um tênis que aperta, por que não fazemos o mesmo com os vínculos que nos sufocam?
Definitivamente, aquilo que não é recíproco não vale a pena. Para que se diminuir ou engolir sapos para ser aceito em grupos onde você não tem valor, ou sequer existe? A troco de quê? Quem não é capaz de te aceitar como você é, não merece a sua presença.
Dizem que as pessoas desprezam aquilo que não podem ter ou não podem ser. Pois bem: para que permanecer numa rede virtual se, no mundo real, você evita o contato e apenas acena de longe?
Já que iniciamos um novo ano, convido você — e a mim mesmo — a começar essa fase sem sabotagem, sem busca por aceitação vazia, sem troca de likes por indiferença.
Se você não suporta alguém, exclua-o da sua vida. Fique mais leve.
E que isso valha para mim também.