Fazia muito tempo que eu não entrava em um ferro-velho, mas a vida dá voltas e, por necessidade, acabamos voltando a esses lugares.
Hoje quero registrar uma história recente — talvez ninguém se interesse, mas ainda assim gosto de escrever.
Meu filho teve o carro furtado enquanto trabalhava. Felizmente conseguimos recuperá-lo, abandonado na vizinha Limeira, interior de São Paulo. Isso só foi possível porque o motor quebrou durante a fuga do ladrão.
O carro é um Volkswagen Gol antigo, e precisei procurar um bloco em ferro-velho, já que comprar um novo seria inviável.
O ambiente continua o mesmo de três décadas atrás, quando eu buscava peças para meu velho fusquinha: nenhuma evolução, nenhuma organização. Peças espalhadas e amontoadas por todos os cantos — no piso, nas paredes, no balcão, onde quer que o olhar alcançasse.
Cumprimentei o sujeito do balcão e perguntei se havia um bloco de motor para Gol 1.0. Do alto de sua preguiça, sentado num banco de madeira, apenas levantou o braço e apontou para os fundos da pocilga.
Fui sozinho até o local indicado. Como era de se esperar, não consegui identificar nada no meio daquela bagunça. Esperava, ao menos, que ele me acompanhasse.
Depois de alguns minutos procurando às cegas, desisti. Ao sair, o sujeito reapareceu e perguntou:
— O bloco que você procura é para qual Gol?
— Para um Gol 1.0, 16 válvulas — respondi.
— Mas você não sabe se é Gol Bola, Geração 2, 3, 4, 5...?
— Não, eu não sei — respondi naturalmente.
— MAS VOCÊ NÃO CONHECE CARRO? — gritou, surpreso com minha ignorância.
Respirei fundo e me arrependi de ter entrado. Para ele, não conhecer as gerações do Gol era prova de idiotice.
E não parou por aí.
— Está vendo aquele carro ali? É um Gol Bola — ensinou o rei da sucata.
Seguiu transmitindo seu “valioso” conhecimento sobre modelos de carros, apontando veículos e explicando como se fosse um professor. Até que indicou um carro na calçada.
— Esse eu conheço bem — respondi irritado. — Afinal, é o meu. E perguntei se ele realmente me achava idiota por não saber diferenciar os tipos de Gol.
A conversa tornou-se insustentável. Fui embora com o “conhecimento” inútil adquirido, torcendo para que passem mais trinta anos antes de eu precisar entrar novamente em um ferro-velho.
Antes de terminar, registro uma reflexão: não tenho os talentos que gostaria, mas consigo fazer algumas coisas satisfatórias. Gostaria de ter outros dons, mas talento não depende de desejo.
Há quem escreva com maestria. Outros encantam ao tocar instrumentos. Alguns falam inglês com fluência invejável. Há quem pinte quadros ou esculpa obras extraordinárias. Outros possuem memória prodigiosa. Esses são talentos que eu gostaria de ter — muito mais do que saber as gerações de motores de Gol, conhecimento que nada acrescenta à minha vida.
Por hoje é isso.
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