09/04/2017

Sobre a amizade

Amizade é uma coisa boa, mas nem sempre é possível ter amigos.

Desde criança, sempre tive poucas amizades. Meus contatos se resumiam aos irmãos, primos e, eventualmente, algum vizinho. Na adolescência, morando no interior do Rio, o aglomerado de casas e pessoas próximas favorecia, em tese, a aproximação. Porém, mesmo nesse ambiente fértil, eu não conseguia fazer parte de grupos maiores que duas ou três pessoas. Minha interação com os outros sempre foi limitada e circunstancial.

O tempo passou e hoje vivo praticamente para o trabalho, minha pequena família, um cachorro, um gato, meus livros e a internet. No trabalho, as amizades duram o tempo exato da carga horária. São alianças de interesses mútuos dentro das paredes corporativas: companheirismo, respeito, colaboração e até humor. Mas a pressa e o foco não deixam espaço para conversas mais elaboradas, reflexivas e tranquilas sobre a vida. Tudo ocorre na velocidade dos ponteiros do relógio. Na vizinhança, também não tenho amigos — apenas compartilhamos a mesma rua e o mesmo ar.

Não critico essas alianças. Elas são importantes: ajudam, sustentam, protegem e possibilitam a sobrevivência. Na selva do mercado, talvez tenham mais valor do que a amizade tradicional. Durante minha existência, tive muitos conhecidos, poucos amigos e boas alianças.

Na juventude, eu gostava de sair para as festas tradicionais da cidade. Era a diversão possível, sem dinheiro e sem carro. Lembro que tinha apenas dois colegas na mesma situação: saíamos juntos para conhecer meninas, franguinhos de granja estreando na arte da paquera, com vergonha, pouco dinheiro e muitos hormônios.

Com o tempo, tornei-me independente. Os amigos se foram e aprendi a gostar de ir sozinho aos lugares. Escolher o próprio caminho não tem preço — é a sina dos espíritos livres. Em minha cidade natal, ainda tenho um amigo de longa data, que visito uma vez por ano nas férias. Mas a distância não favorece o contato frequente, e a vida segue.

Conhecidos, tenho muitos — herdados do bairro, da escola ou do trabalho. São relações casuais e breves. No geral, sabemos pouco uns dos outros: o local de trabalho, o bairro onde moram, o time de futebol. Resumindo, descubro apenas se estão vivos, doentes, velhos ou mortos.

Outro dia li Rubem Alves sobre envelhecer. Ele dizia que chamar a velhice de “melhor idade” só pode ser invenção de um demônio zombeteiro disfarçado de anjo. Velhice é quando passamos a ser tratados como “objeto de respeito” e não mais de desejo. E o que ele queria não era respeito, mas desejo.

Voltando à amizade, classifico-a em três tipos: circunstancial, interesseira ou motivada pela admiração. O termo parece ultrapassado; talvez precisemos reinventá-lo. O maior exemplo da banalidade da amizade hoje é o Facebook.

Na juventude, buscamos rebanhos. Com a maturidade, o cansaço do trabalho, o peso da idade e os interesses diferentes, inevitavelmente nos afastamos. Veja como os velhos são solitários. O segredo talvez seja o autoconhecimento, a autoestima e aprender a gostar da própria companhia. Fácil dizer hoje; só saberei se funciona quando chegar lá.

Na rede social, já tive mais de 300 “amigos”. Reduzi para cerca de 100. Não virei inimigo dos excluídos, mas percebi indiferença. Alguns nem me cumprimentavam na rua. Se você está numa rede de interação, o mínimo esperado é interação. Publicar pensamentos e ver pessoas apenas monitorando em silêncio, como cadáveres ou espiões, não me serve.

Hoje me sinto bem com poucos amigos. Gosto da vida (às vezes não), da literatura e da filosofia. Pessoas solitárias compensam o déficit social com atividades intelectuais, e isso pode ser tão prazeroso quanto relações que nada acrescentam. De vez em quando vou a um churrasco da empresa e até gosto. Quem me lê pode pensar que sou hermético, mas não é verdade. Em certas circunstâncias, sou receptivo e bem relacionado.

Nos livros encontrei companhia: autores que conversam comigo, ensinam e me fazem pensar. No mundo virtual, grupos de discussão espalhados pelo Brasil também oferecem boas trocas intelectuais.

Hoje me conheço melhor e me suporto. Não forço amizades em troca de likes ou atenção. Descobri que bons relacionamentos dependem de afinidade e circunstâncias.

Moro no interior de São Paulo há oito anos e percebo que, em geral, as pessoas daqui não gostam de conversar. Na cantina do trabalho, puxo assunto para evitar o silêncio, mas muitos respondem de forma lacônica ou saem apressados, como o coelho branco de Alice no País das Maravilhas. Há exceções, claro, e alguns sabem conversar bem nos breves intervalos. Mas o relógio, carrasco do tempo, não perdoa.

Gosto de conversas que continuam na cabeça mesmo depois que a pessoa se afasta. Isso é sinal de que valeu a pena. Se não deixam nada e ainda nos fazem sentir pior, melhor nem ter encontrado. Relações boas devem ser saudáveis e satisfatórias.

Ufa! Sem querer, virou textão. Essas eram as banalidades que estavam na minha mente quando sentei diante do notebook. O assunto pode continuar em outra ocasião, porque ainda tenho muito a dizer sobre esse tema demasiadamente humano. Mas fica para depois. Poucos terão paciência para ler até aqui.

Até a próxima!

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