Papai, ainda estou aqui.
Quanto tempo não te vejo!
Parece que foi ontem o seu último dia.
Jamais esquecerei.
Eu tinha apenas quatorze anos quando você se foi para sempre.
É duro dizer “para sempre”, mas a vida real é assim.
Muitos afirmam que um dia nos encontraremos, mas não alimento essa ilusão.
Às crianças contam que, ao morrer, as pessoas se transformam em estrelas no céu.
Entretanto, aprendi nos livros de ciência que estrelas não são pessoas.
Papai, eu cresci.
Aprendi que devo aceitar a finitude da vida como um processo natural e inevitável.
Quando você nos deixou, eu ainda acreditava em fantasias reconfortantes.
Mas, durante a sua ausência, precisei buscar explicações racionais sobre o mundo.
A literatura e alguns autores me ofereceram respostas mais coerentes às minhas necessidades.
Do céu, recebi apenas silêncio — e disso não reclamo.
A vida é assim, e pronto.
Infelizmente, tenho de aceitar que nunca mais nos encontraremos, por mais fascinante que seja a ideia contrária.
Hoje interpreto a vida de outra forma, mas a culpa não é sua.
Aceito a beleza do jardim sem as fadas, como disse Douglas Adams, e estou bem assim.
Sei que você jamais lerá estas palavras, nem saberá como foi nossa vida depois que partiu.
Mas, se pudesse lhe “dizer” algo, seria para agradecer por tudo.
Você fez muita falta, e ainda sinto saudades.
Uma pena não estar mais aqui, papai.
A culpa não é sua.
Não foi fácil viver sem você, mas sobrevivemos.
Guardo muitas memórias da sua existência e gostaria que estivesse almoçando conosco.
Depois que você se foi, enfrentamos muitas dificuldades, mas hoje estamos bem.
Mamãe ficou viúva com três filhos adolescentes e fez de tudo para nos criar com dignidade, honestidade e poucos recursos.
Na época, com quatorze anos, eu não me conformava com sua partida.
Pensava que a vida era controlada por um Deus.
Com o tempo, descobri que não há ninguém no controle, que os eventos não são programados e que, portanto, a culpa não é de ninguém.
Eu sou pai, e jamais deixaria três crianças em dificuldades sem o seu pai.
De todas as carências, a sua presença foi a maior.
Hoje sei que a natureza é cega, indiferente e implacável às nossas necessidades.
Os humanos criam fantasias e outros mundos para suportar melhor a vida e não aceitar a finitude.
Sei também que a natureza não é justa nem injusta: somos nós que criamos conceitos, classificamos e rotulamos.
O roteiro da vida não é escrito por ninguém; a história de cada um resulta de eventos e escolhas ao longo da existência.
Não temos controle sobre grande parte da vida e tentamos sobreviver fazendo o melhor que podemos — nem sempre —, trabalhando incessantemente em busca de uma vida satisfatória.
Papai, dizem que nada acontece por acaso.
Eu não acredito nisso.
Muita coisa acontece por acaso, todos os dias.
Inclusive mortes prematuras como a sua.
Como já disse, a natureza não tem culpa.
Todos somos vítimas.
A culpa não foi sua.
Aliás, a culpa não é de ninguém.
A morte faz parte do processo da vida.
Lembro que você nunca me deu um tapa, mas a vida, com o tempo, me deu alguns — e isso também faz parte do aprendizado.
Preciso encerrar este texto, antes que pensem que não estou bem de saúde mental, escrevendo para um pai que já não existe.
Mas isso não importa.
Por alguns instantes, pude me lembrar de você e sentir gratidão por ter existido, por ter me dado amor e sua carga genética.
Ainda sinto muito a sua falta, mesmo depois de tanto tempo.
Teria tantas coisas para conversar, mas nossa história foi interrompida e nunca conseguiremos colocar os assuntos em dia.
Sinto muito, papai.
Mas a culpa não é sua.
Beijos imaginários de seu primogênito,
Alex









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