02/11/2025

O Peso dos Projetos Inacabados

O tempo, esse vilão intransigente e implacável, não apenas passa; ele nos lembra de que somos finitos, empilhando na soleira da porta os projetos que não conseguimos cumprir. E não foram poucos.

Não fiz a faculdade que desejei, e o diploma hoje é uma mera ficção. Não terminei o curso de inglês, de modo que a fluência ficou presa no sotaque. O teclado Yamaha ainda mora no quarto, um monumento silencioso àquelas horas de escalas que nunca se transformaram em melodia. E, claro, não concluí a escrita do meu livro. Gastei muitas horas da minha vida nestes projetos, mas fui invariavelmente vencido pela prioridade de sobreviver ao sistema, e a vontade de continuar, aos poucos, murchou.

É difícil assumir um projeto abandonado. Primeiro, a gente posterga, imaginando sua realização num futuro longínquo, até que o tempo, com seu chicote invisível, nos lembra da interrupção. A vontade e o prazer continuam ausentes, e chega o dia em que, mais velhos, finalmente aceitamos a derrota e contabilizamos mais um risco de fracasso na parede da vida.

Pensando bem, não devemos sofrer por isso. É imperativo dar um ponto final nas pendências para nos sentirmos mais leves. Aliás, livrar-se do que é inútil deve ser um exercício constante em nossas vidas. E isso vale para coisas, pensamentos e, sim, até pessoas.

Quanto ao livro inacabado, para que o tempo não seja totalmente perdido, pretendo deixar as páginas que escrevi aqui no Blog Banal. Mesmo faltando conclusões e revisões, seria uma forma de deixar o projeto como legado. Talvez chegue a um descendente curioso, a um amigo ou a quem sabe, a qualquer pessoa com tempo ocioso que tenha chegado acidentalmente até aqui.

Não tem valor literário algum, adianto. Se o faço, é por um pouco da vaidade que me sobrou e por pena de jogar fora esse tempo gasto. Está aí, o meu legado: a confissão de que a vida se fez em outros caminhos, e o alívio de aceitar a leveza que nasce da desistência honesta.

Outono de 2020.

Alex Gil Rodrigues

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