02/11/2025

A Trilha da existência

Lembro-me do Outono de um ano qualquer, quando anotei essa verdade que me atingiu com a força de um soco lírico. Eu estava no café da manhã, o sol entrava oblíquo pela janela, e a frase simplesmente se impôs: "Todos os dias acordamos e não conseguimos viver a vida como queremos."

É o mantra silencioso da maturidade. O reconhecimento humilde de que o mapa que desenhamos na juventude foi substituído pela bússola da sobrevivência.

Tomamos o café, sim, e seguimos resignados pela trilha aberta na mata da existência. Não há mais tempo para forjar novos caminhos ou sonhar com atalhos exuberantes. Caminhamos, nós, os sobreviventes do sistema, pela terra marcada. Com o tempo, já nem desviamos mais de cada contorno, e nossos pés, endurecidos pela vida, conhecem de cor cada pedra, cada raiz escondida.

A resignação, percebo, é a armadura do cotidiano. É ela que nos permite seguir em frente, mesmo sabendo que a mata, antes densa de possibilidades, é agora uma paisagem de repetições. A trilha não é mais um caminho, é um sulco.

Nosso encontro diário com este chão duro de terra vermelha afundará lentamente. O peso das repetições. O peso dos "deveria ter feito". O peso dos "não deu". E a cada passo, a cada dia que se repete, a trilha se aprofunda um pouco mais.

Até que, um dia, essa trilha aberta se transforme numa cova profunda, íntima e definitiva.

Não há tragédia na constatação, mas apenas a aceitação. O valor da vida não está em escapar da trilha, mas em perceber que, mesmo no sulco da rotina, fomos nós quem a marcamos com nossos passos. E se a cova é o destino inevitável, que ela ao menos guarde a memória do esforço, do café tomado e da resignação necessária que nos permitiu caminhar todos os dias.


Nenhum comentário:

Postar um comentário