Há dias em que a única verdade possível é: eu acordei morto. Não um morto em sentido literal, mas um morto para as cores, para o ímpeto e para a urgência da vida. A noite foi pesada, uma daquelas sessões sombrias que ferem a alma e desanimam a carne, permeada por pensamentos absurdos sobre a solução mais radical para todos os problemas: parar de existir. Todos.
Algumas coisas não devem ser pensadas, menos ainda escritas. Se a mente fosse um diário aberto, o diagnóstico seria imediato: doente.
Mas é preciso manter a aparência para o mundo ideal. É preciso oferecer aquilo que eles querem receber como mercadoria: a imagem de que está tudo bem. É o contrato social da sobrevivência: ignorar a ferida, receber a ingratidão e fazer de conta que o navio segue em águas calmas. O mundo é um grande mercado. Cada um com o seu problema, seu preço, sua dor. E a dor do outro, convenhamos, custa muito pouco. Nossas dores, ah, essas são as mais caras.
O silêncio é, então, o melhor remédio? Pode ser que seja, mas serve, principalmente, como armadura. É o escudo contra o exército de especialistas remunerados que recebem para tratar exatamente o problema que eles próprios sentem e não conseguiram resolver. Receitar a solução para os outros é fácil; difícil é tratar a própria dor.
Existem diversas fugas, todas com efeito rápido. A maior delas, a mais sedutora, é a fuga definitiva: deixar de existir. Essa, sim, cura tudo e imediatamente. Mas para isso é necessária a coragem. Requer uma dose altíssima de racionalidade, ou de sua ausência total. Não sei qual das duas.
A natureza, no entanto, foi programada para resistir até o fim. O corpo, esse leão velho e teimoso, agarra-se à vida, mesmo que ela esteja sem cores e insuportável. Por enquanto, resta apenas seguir em frente. A curiosidade ainda pulsa, fraca, mas presente.
O tempo cura? Tenta-se acreditar. Mas a experiência diz o contrário: cura nada. Apenas arquiva. Temos que seguir adiante, mesmo sabendo disso. Inventamos distrações para suportar a realidade crua e vestimos máscaras para não aumentar o sofrimento dos outros com os nossos.
Força, velho leão. Respire. Tudo passa, e a vida é, no fim, tudo isso: a soma do dia sombrio e da teimosia em aguardar o próximo outono.
OBS: Escrito num dia qualquer de 2019 e republicado agora, fora do contexto original.
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