02/11/2025

O último adeus

Para ser lido no futuro de minha inexistência.

Datado de 2 de novembro de 2025, este registro é um paradoxo temporal: um adeus escrito no passado, endereçado a quem me lê neste instante em que já sou ausência. Sinto o tempo se esvair, percebo a vida tornar-se leve, talvez no silêncio de um sono iminente. A suspeita recai sobre o coração, onde uma dor suave anuncia a despedida — ou outra razão qualquer, não sei ao certo, mas isso pouco importa.

E agora, concedo-me o salto. O mergulho no grande silêncio...

Eu morri.

Vivi a medida que me foi dada. Fui artífice do tempo, dedicando a maior parte da existência ao labor e ao sustento. Honrei os ciclos essenciais: casei-me, deixando em meus filhos a mais preciosa das heranças. Este manuscrito, que deveria ser segredo, é agora lido por você, que me encontra no futuro, enquanto eu, no presente da eternidade, jamais recordarei que existi.

Hoje, descanso. E o termo é exato, definitivo. A troca é completa: não há mais o fervor da alegria, nem a visão grandiosa do mar, mas, em compensação, nenhuma das amarras terrenas subsiste.

O chicote das preocupações, a sombra da insegurança, a pontada da fome, o peso do cansaço, o nó da ansiedade e a tensão do estresse — tudo se dissolveu. Sou pura e eterna liberdade, intocável. Nada me abala, nada me atinge. Retornei à condição original de ser antes do ser, antes de me fazer carne e consciência. Esta, e somente esta, é a verdadeira e inabalável paz eterna.

Deixo minha palavra de gratidão a quem foi meu pilar: à esposa que, com firmeza, me ajudou a atravessar os vales difíceis; aos filhos, que são a prova viva do meu legado; à mãe, que teceu a vida e os cuidados que me trouxeram até aqui; e a cada uma das poucas e importantes almas que conviveram comigo e mereceram minha sincera consideração.

Este é o fim da minha história. Não há mais páginas, nem notas de rodapé. E se o costume dita um “até amanhã”, a eternidade sussurra: “Até nunca mais.” Simplesmente porque uma vida foi, para mim, o suficiente.


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