Existe uma alquimia cruel na passagem do tempo. Na efervescência da juventude, vestimos a certeza de que a vida é um horizonte aberto, onde a expectativa de que "tudo é possível" nos serve de bússola e escudo. O futuro, então, é um mapa em branco, à espera apenas da nossa audácia.
Com o avançar dos anos, contudo, esse mapa ganha relevo, e descobrimos os acidentes geográficos que não escolhemos. Situações inesperadas – os desvios, os golpes laterais – surgem para desequilibrar o que pensávamos ser um arranjo estável. A saúde, essa fundação silenciosa, começa a emitir seus primeiros ruídos, e o corpo, antes um veículo dócil, revela-se uma máquina com prazo e desgaste. Problemas de toda ordem brotam como ervas daninhas em um jardim antes ordenado.
Diante desse cenário, a existência se bifurca em duas estradas de difícil trânsito. A primeira exige a luta contínua, a teimosia em mover a montanha, combinada com a sabedoria estoica de aceitar aquilo que não se tem controle. É um exercício de força e humildade. A segunda, mais sombria, propõe a rendição aos vendavais, uma entrega passiva que fatalmente compromete a saúde mental, transformando a mente em um campo de batalha permanente.
O alento, esse pequeno e precário bálsamo, surge na frase gasta: "Tudo isso passa." Sim, mas o passar é lento, e a travessia é a carga mais pesada. Confessamos: os dias se tornam mais densos, a leveza da expectativa juvenil é substituída pelo peso da realidade. Chegam momentos em que a sensação de desamparo é total, em que a alma não encontra um porto seguro, nem um lugar para onde ir, apenas a vastidão vazia à frente.
No fim, a vida se resume a um veredito inflexível. Despidos da ilusão de escolha radical, descobrimos nossa verdadeira e inelutável condição: temos apenas que seguir. Estamos condenados a essa marcha, quer ela se desenrole sob a bandeira da alegria ou sob o manto da tristeza. Feliz ou infeliz, não importa o nosso estado interior ou a paisagem externa, a única certeza é a sentença de seguir em frente.
02/11/2025
Tudo é possível?
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