08/10/2017

Anjos de férias?



Recentemente, conversei com uma pessoa próxima que acredita em anjos. Perguntei por que esses supostos anjos não atuaram na tragédia da creche de Janaúba, quando um funcionário ateou fogo em crianças e em si mesmo, matando oito pequenos, a professora, além dele próprio, e deixando vinte e quatro pessoas internadas.

As respostas, naturalmente, não me convenceram.
Sou uma pessoa cheia de defeitos e limitações, mas certamente arriscaria minha vida para salvar aquelas crianças das chamas. Não suportaria assistir ao sofrimento tendo o poder de evitar e, ainda assim, nada fazer.

Quando um evento termina bem, logo se atribui à ação de forças sobrenaturais, como se tudo estivesse sob “controle”.
Quando termina mal, reina o silêncio, surgem desculpas contraditórias ou a desonestidade intelectual.

Definitivamente, meu cérebro funciona de outra forma.
E confesso: estou com pouca paciência para explicações convenientes.


12/08/2017

Papai, a culpa não é sua!


Papai, ainda estou aqui.

Quanto tempo não te vejo!
Parece que foi ontem o seu último dia.
Jamais esquecerei.

Eu tinha apenas quatorze anos quando você se foi para sempre.
É duro dizer “para sempre”, mas a vida real é assim.
Muitos afirmam que um dia nos encontraremos, mas não alimento essa ilusão.
Às crianças contam que, ao morrer, as pessoas se transformam em estrelas no céu.
Entretanto, aprendi nos livros de ciência que estrelas não são pessoas.

Papai, eu cresci.
Aprendi que devo aceitar a finitude da vida como um processo natural e inevitável.
Quando você nos deixou, eu ainda acreditava em fantasias reconfortantes.
Mas, durante a sua ausência, precisei buscar explicações racionais sobre o mundo.
A literatura e alguns autores me ofereceram respostas mais coerentes às minhas necessidades.
Do céu, recebi apenas silêncio — e disso não reclamo.
A vida é assim, e pronto.

Infelizmente, tenho de aceitar que nunca mais nos encontraremos, por mais fascinante que seja a ideia contrária.
Hoje interpreto a vida de outra forma, mas a culpa não é sua.
Aceito a beleza do jardim sem as fadas, como disse Douglas Adams, e estou bem assim.

Sei que você jamais lerá estas palavras, nem saberá como foi nossa vida depois que partiu.
Mas, se pudesse lhe “dizer” algo, seria para agradecer por tudo.
Você fez muita falta, e ainda sinto saudades.
Uma pena não estar mais aqui, papai.
A culpa não é sua.

Não foi fácil viver sem você, mas sobrevivemos.
Guardo muitas memórias da sua existência e gostaria que estivesse almoçando conosco.
Depois que você se foi, enfrentamos muitas dificuldades, mas hoje estamos bem.
Mamãe ficou viúva com três filhos adolescentes e fez de tudo para nos criar com dignidade, honestidade e poucos recursos.

Na época, com quatorze anos, eu não me conformava com sua partida.
Pensava que a vida era controlada por um Deus.
Com o tempo, descobri que não há ninguém no controle, que os eventos não são programados e que, portanto, a culpa não é de ninguém.
Eu sou pai, e jamais deixaria três crianças em dificuldades sem o seu pai.
De todas as carências, a sua presença foi a maior.

Hoje sei que a natureza é cega, indiferente e implacável às nossas necessidades.
Os humanos criam fantasias e outros mundos para suportar melhor a vida e não aceitar a finitude.
Sei também que a natureza não é justa nem injusta: somos nós que criamos conceitos, classificamos e rotulamos.
O roteiro da vida não é escrito por ninguém; a história de cada um resulta de eventos e escolhas ao longo da existência.
Não temos controle sobre grande parte da vida e tentamos sobreviver fazendo o melhor que podemos — nem sempre —, trabalhando incessantemente em busca de uma vida satisfatória.

Papai, dizem que nada acontece por acaso.
Eu não acredito nisso.
Muita coisa acontece por acaso, todos os dias.
Inclusive mortes prematuras como a sua.
Como já disse, a natureza não tem culpa.
Todos somos vítimas.
A culpa não foi sua.
Aliás, a culpa não é de ninguém.
A morte faz parte do processo da vida.

Lembro que você nunca me deu um tapa, mas a vida, com o tempo, me deu alguns — e isso também faz parte do aprendizado.

Preciso encerrar este texto, antes que pensem que não estou bem de saúde mental, escrevendo para um pai que já não existe.

Mas isso não importa.
Por alguns instantes, pude me lembrar de você e sentir gratidão por ter existido, por ter me dado amor e sua carga genética.
Ainda sinto muito a sua falta, mesmo depois de tanto tempo.
Teria tantas coisas para conversar, mas nossa história foi interrompida e nunca conseguiremos colocar os assuntos em dia.

Sinto muito, papai.
Mas a culpa não é sua.

Beijos imaginários de seu primogênito,
Alex

  
Papai e mamãe
Visita à Aparecida-SP
Papai adolescente



Casamento de papai e mamãe



No Jardim das Preguiças
Papai rapaz

Ele gostava de carnaval
Papai com 26 anos

Foto rara dele sorrindo






06/08/2017

Ferro velho, eu voltei!


Fazia muito tempo que eu não entrava em um ferro-velho, mas a vida dá voltas e, por necessidade, acabamos voltando a esses lugares.

Hoje quero registrar uma história recente — talvez ninguém se interesse, mas ainda assim gosto de escrever.

Meu filho teve o carro furtado enquanto trabalhava. Felizmente conseguimos recuperá-lo, abandonado na vizinha Limeira, interior de São Paulo. Isso só foi possível porque o motor quebrou durante a fuga do ladrão.

O carro é um Volkswagen Gol antigo, e precisei procurar um bloco em ferro-velho, já que comprar um novo seria inviável.

O ambiente continua o mesmo de três décadas atrás, quando eu buscava peças para meu velho fusquinha: nenhuma evolução, nenhuma organização. Peças espalhadas e amontoadas por todos os cantos — no piso, nas paredes, no balcão, onde quer que o olhar alcançasse.

Cumprimentei o sujeito do balcão e perguntei se havia um bloco de motor para Gol 1.0. Do alto de sua preguiça, sentado num banco de madeira, apenas levantou o braço e apontou para os fundos da pocilga.

Fui sozinho até o local indicado. Como era de se esperar, não consegui identificar nada no meio daquela bagunça. Esperava, ao menos, que ele me acompanhasse.

Depois de alguns minutos procurando às cegas, desisti. Ao sair, o sujeito reapareceu e perguntou:

— O bloco que você procura é para qual Gol?

— Para um Gol 1.0, 16 válvulas — respondi.

— Mas você não sabe se é Gol Bola, Geração 2, 3, 4, 5...?

— Não, eu não sei — respondi naturalmente.

— MAS VOCÊ NÃO CONHECE CARRO? — gritou, surpreso com minha ignorância.

Respirei fundo e me arrependi de ter entrado. Para ele, não conhecer as gerações do Gol era prova de idiotice.

E não parou por aí.

— Está vendo aquele carro ali? É um Gol Bola — ensinou o rei da sucata.

Seguiu transmitindo seu “valioso” conhecimento sobre modelos de carros, apontando veículos e explicando como se fosse um professor. Até que indicou um carro na calçada.

— Esse eu conheço bem — respondi irritado. — Afinal, é o meu. E perguntei se ele realmente me achava idiota por não saber diferenciar os tipos de Gol.

A conversa tornou-se insustentável. Fui embora com o “conhecimento” inútil adquirido, torcendo para que passem mais trinta anos antes de eu precisar entrar novamente em um ferro-velho.

Antes de terminar, registro uma reflexão: não tenho os talentos que gostaria, mas consigo fazer algumas coisas satisfatórias. Gostaria de ter outros dons, mas talento não depende de desejo.

Há quem escreva com maestria. Outros encantam ao tocar instrumentos. Alguns falam inglês com fluência invejável. Há quem pinte quadros ou esculpa obras extraordinárias. Outros possuem memória prodigiosa. Esses são talentos que eu gostaria de ter — muito mais do que saber as gerações de motores de Gol, conhecimento que nada acrescenta à minha vida.

Por hoje é isso.



21/07/2017

Quem é Deus segundo Ludwig Feuerbach



Recentemente conheci um autor chamado Ludwig Feuerbach, nascido em 1804 e falecido em 1872 com umas ideias bem interessantes. 

A sua obra defende, entre outras coisas, que Deus é uma criação humana e que foi o ser humano que criou Deus, ou seja que Deus foi criado pelo homem à imagem e semelhança da própria personalidade humana! 

Interessante esse ponto de vista. Acho que poucos pensaram dessa forma. Segundo ele, a criação de Deus foi bem simples. O homem pegou a sua própria personalidade, retirou todos os vícios, deixou apenas as virtudes e idealizou essa mesma personalidade humana destituída de defeitos e dotada apenas de virtudes como pertencendo a um ser eterno divino chamado Deus. 

Para criar o Diabo, o ser humano pegou exatamente aquelas características negativas de sua própria personalidade, removeu todas as características positivas e considerou apenas os defeitos de sua própria personalidade! 

Assim sendo, o Diabo seria a representação, digamos assim, substantivada dos próprios defeitos da personalidade humana e quanto que Deus seria a substantivação de todas as características positivas da própria personalidade humana!


02/07/2017

Schopenhauer sendo Schopenhauer



É realmente inacreditável como a vida da maioria dos homens flui de maneira insignificante e fútil, quando vista externamente, e quão apática e sem sentido pode parecer interiormente. As quatro idades da vida que levam à morte são feitas de ânsia e martírio extenuados, além de uma vertigem ilusória, acompanhada por uma série de pensamentos triviais. Assemelham-se ao mecanismo de um relógio, que é colocado em movimento e gira, sem saber por quê. E toda a vez que um homem é gerado e nasce, dá-se novamente corda ao relógio da vida humana, para então repetir a mesma cantilena pela enésima vez, frase por frase, compasso por compasso, com variações insignificantes.


Arthur Schopenhauer


18/06/2017

Conhecendo a Biblioteca de Araras-SP


Depois de algum tempo morando na cidade de Araras, tive a curiosidade de conhecer as várias salas da Biblioteca Municipal Martinico Prado.

O espaço é limpo e bem organizado. Para testar a disponibilidade de livros, perguntei à bibliotecária se havia obras de Nietzsche. Após consultar o sistema, informou que existiam apenas três: uma biografia, Nietzsche para estressados e Quando Nietzsche chorou. Nenhuma obra escrita pelo “filósofo do martelo”. Sem problemas — isso não diminui a importância do local.

Ainda bem que possuo muitos livros em casa, e talvez esse seja um dos motivos de ter demorado tanto para conhecer a biblioteca da cidade. Antes de me despedir, agradeci e perguntei se poderia tirar uma fotografia do ambiente, apenas como lembrança. A resposta foi lacônica: não.

Surpreso, questionei a razão da negativa. Ela explicou que havia muita gente “má intencionada” e, por isso, não era permitido. Argumentei que não via motivo para tal proibição, já que o espaço estava bem apresentado. Se fosse um museu, onde o flash pudesse danificar obras, até entenderia. Mas não era o caso. Reforcei que minha intenção era positiva, mas, firme, ela disse que eu precisaria de autorização especial da prefeitura para registrar imagens daquele ambiente público. É claro que desisti da fotografia.

Fiquei pensando: será que também precisarei de autorização para fotografar o Lago Municipal, o Parque Ecológico ou o caça Mirage em frente ao Ginásio Municipal? Estranho, não?

A história pode ser irrelevante, mas achei importante deixá-la registrada aqui no Blog Banal, como lembrança dos conceitos desta época.



10/06/2017

Sobre o paraíso

Imagine que você acorda sonolento, abre os olhos e percebe estar em um lugar paradisíaco.

A temperatura é agradável, a visão deslumbrante, e uma sensação de bem-estar nunca antes sentida envolve o corpo.

Ao olhar em volta, nota a presença de outras pessoas, mas nenhum rosto familiar.
Mais adiante, grupos conversam animadamente, transbordando alegria e amizade.

Diante da solidão, você decide caminhar entre os jardins floridos, na esperança de encontrar algum parente ou amigo naquela manhã tão agradável.
Depois de muito procurar, percebe que não há ninguém conhecido naquele cenário deslumbrante.
É como estar em uma festa cercado de estranhos.

Apesar da beleza do lugar, nasce a necessidade de reencontrar aqueles que tornaram sua existência mais suportável, de compartilhar com eles tais sensações.
Mas, enfim, descobre que seus filhos, parentes e amigos não estão ali.
Ao contrário, encontram-se em um espaço terrível, marcado por calor insuportável e dor incessante — todos os dias, para sempre.

Nesse momento, alguém se aproxima para consolar:
— Não se preocupe com os seus. Você salvou a sua vida, e isso é o mais importante.
— Seja feliz eternamente. Seus filhos e amigos tiveram a mesma chance que você. Agora recebem o castigo que merecem. A culpa não é sua. Sorria: você conquistou o maior prêmio, a vida eterna.


03/06/2017

O problema é a vida?


Primeiro, pensei que o problema fosse a segunda-feira.
Depois, desconfiei que fosse o mês de maio.
Hoje percebo: o problema talvez seja a própria vida.



07/05/2017

Meu celular, meu carrasco.



O celular desobediente despertou-me às 6h30. Que absurdo! Hoje é domingo e, por um lapso, esqueci de desprogramá-lo. Acordo cedo todos os dias, mas justamente hoje não queria ser lembrado pelo carrasco que me acompanha e dita o meu precioso e finito tempo. Tudo bem, acontece.

Com o passar dos anos, percebo que suportamos melhor a vida metódica, programada e cheia de normas. Não digo que a aceitamos — apenas que a suportamos.

Pensando bem, talvez eu exagere. No fundo, já me acostumei com o destino. Seria essa reconciliação o tal amor fati de que falava o filósofo do martelo?

A cama estava agradável, convidativa. Estiquei o braço e, com a ponta dos dedos, silenciei fulminantemente o meu tirano, com a satisfação de quem vence o inimigo.

Ah, se eu tivesse o poder de silenciar tudo aquilo que não quero com apenas um toque no gatilho da justiça!

Alex, Outono de 7/5/2017


06/05/2017

É sexta-feira!




Missão cumprida.
O corpo caminha lentamente pelos corredores, acompanhado por diálogos internos e pela eterna esperança de dias melhores.

Anoitece rápido.
O crachá, na ponta dos dedos, aguarda liberar a saída provisória — chave que abre algemas invisíveis.
No estacionamento, a moto solitária e molhada espera como um cavalo mudo e obediente.

É sexta-feira, o trânsito se adensa.
Do lado de fora, rostos estranhos, olhos arregalados atrás dos capacetes, avançam com mais vontade pelo asfalto.
Os ponteiros do relógio giram sem cessar.
O tempo e a necessidade são algemas invisíveis.

Sigo entre o asfalto, a cama e a catraca.
Anoitece de novo.
E sigo, mais uma vez, entre o asfalto, a catraca e o asfalto...

Eterno retorno.

Alex, 05/05


09/04/2017

Sobre a amizade

Amizade é uma coisa boa, mas nem sempre é possível ter amigos.

Desde criança, sempre tive poucas amizades. Meus contatos se resumiam aos irmãos, primos e, eventualmente, algum vizinho. Na adolescência, morando no interior do Rio, o aglomerado de casas e pessoas próximas favorecia, em tese, a aproximação. Porém, mesmo nesse ambiente fértil, eu não conseguia fazer parte de grupos maiores que duas ou três pessoas. Minha interação com os outros sempre foi limitada e circunstancial.

O tempo passou e hoje vivo praticamente para o trabalho, minha pequena família, um cachorro, um gato, meus livros e a internet. No trabalho, as amizades duram o tempo exato da carga horária. São alianças de interesses mútuos dentro das paredes corporativas: companheirismo, respeito, colaboração e até humor. Mas a pressa e o foco não deixam espaço para conversas mais elaboradas, reflexivas e tranquilas sobre a vida. Tudo ocorre na velocidade dos ponteiros do relógio. Na vizinhança, também não tenho amigos — apenas compartilhamos a mesma rua e o mesmo ar.

Não critico essas alianças. Elas são importantes: ajudam, sustentam, protegem e possibilitam a sobrevivência. Na selva do mercado, talvez tenham mais valor do que a amizade tradicional. Durante minha existência, tive muitos conhecidos, poucos amigos e boas alianças.

Na juventude, eu gostava de sair para as festas tradicionais da cidade. Era a diversão possível, sem dinheiro e sem carro. Lembro que tinha apenas dois colegas na mesma situação: saíamos juntos para conhecer meninas, franguinhos de granja estreando na arte da paquera, com vergonha, pouco dinheiro e muitos hormônios.

Com o tempo, tornei-me independente. Os amigos se foram e aprendi a gostar de ir sozinho aos lugares. Escolher o próprio caminho não tem preço — é a sina dos espíritos livres. Em minha cidade natal, ainda tenho um amigo de longa data, que visito uma vez por ano nas férias. Mas a distância não favorece o contato frequente, e a vida segue.

Conhecidos, tenho muitos — herdados do bairro, da escola ou do trabalho. São relações casuais e breves. No geral, sabemos pouco uns dos outros: o local de trabalho, o bairro onde moram, o time de futebol. Resumindo, descubro apenas se estão vivos, doentes, velhos ou mortos.

Outro dia li Rubem Alves sobre envelhecer. Ele dizia que chamar a velhice de “melhor idade” só pode ser invenção de um demônio zombeteiro disfarçado de anjo. Velhice é quando passamos a ser tratados como “objeto de respeito” e não mais de desejo. E o que ele queria não era respeito, mas desejo.

Voltando à amizade, classifico-a em três tipos: circunstancial, interesseira ou motivada pela admiração. O termo parece ultrapassado; talvez precisemos reinventá-lo. O maior exemplo da banalidade da amizade hoje é o Facebook.

Na juventude, buscamos rebanhos. Com a maturidade, o cansaço do trabalho, o peso da idade e os interesses diferentes, inevitavelmente nos afastamos. Veja como os velhos são solitários. O segredo talvez seja o autoconhecimento, a autoestima e aprender a gostar da própria companhia. Fácil dizer hoje; só saberei se funciona quando chegar lá.

Na rede social, já tive mais de 300 “amigos”. Reduzi para cerca de 100. Não virei inimigo dos excluídos, mas percebi indiferença. Alguns nem me cumprimentavam na rua. Se você está numa rede de interação, o mínimo esperado é interação. Publicar pensamentos e ver pessoas apenas monitorando em silêncio, como cadáveres ou espiões, não me serve.

Hoje me sinto bem com poucos amigos. Gosto da vida (às vezes não), da literatura e da filosofia. Pessoas solitárias compensam o déficit social com atividades intelectuais, e isso pode ser tão prazeroso quanto relações que nada acrescentam. De vez em quando vou a um churrasco da empresa e até gosto. Quem me lê pode pensar que sou hermético, mas não é verdade. Em certas circunstâncias, sou receptivo e bem relacionado.

Nos livros encontrei companhia: autores que conversam comigo, ensinam e me fazem pensar. No mundo virtual, grupos de discussão espalhados pelo Brasil também oferecem boas trocas intelectuais.

Hoje me conheço melhor e me suporto. Não forço amizades em troca de likes ou atenção. Descobri que bons relacionamentos dependem de afinidade e circunstâncias.

Moro no interior de São Paulo há oito anos e percebo que, em geral, as pessoas daqui não gostam de conversar. Na cantina do trabalho, puxo assunto para evitar o silêncio, mas muitos respondem de forma lacônica ou saem apressados, como o coelho branco de Alice no País das Maravilhas. Há exceções, claro, e alguns sabem conversar bem nos breves intervalos. Mas o relógio, carrasco do tempo, não perdoa.

Gosto de conversas que continuam na cabeça mesmo depois que a pessoa se afasta. Isso é sinal de que valeu a pena. Se não deixam nada e ainda nos fazem sentir pior, melhor nem ter encontrado. Relações boas devem ser saudáveis e satisfatórias.

Ufa! Sem querer, virou textão. Essas eram as banalidades que estavam na minha mente quando sentei diante do notebook. O assunto pode continuar em outra ocasião, porque ainda tenho muito a dizer sobre esse tema demasiadamente humano. Mas fica para depois. Poucos terão paciência para ler até aqui.

Até a próxima!