21/07/2017

Quem é Deus segundo Ludwig Feuerbach



Recentemente conheci um autor chamado Ludwig Feuerbach, nascido em 1804 e falecido em 1872 com umas ideias bem interessantes. 

A sua obra defende, entre outras coisas, que Deus é uma criação humana e que foi o ser humano que criou Deus, ou seja que Deus foi criado pelo homem à imagem e semelhança da própria personalidade humana! 

Interessante esse ponto de vista. Acho que poucos pensaram dessa forma. Segundo ele, a criação de Deus foi bem simples. O homem pegou a sua própria personalidade, retirou todos os vícios, deixou apenas as virtudes e idealizou essa mesma personalidade humana destituída de defeitos e dotada apenas de virtudes como pertencendo a um ser eterno divino chamado Deus. 

Para criar o Diabo, o ser humano pegou exatamente aquelas características negativas de sua própria personalidade, removeu todas as características positivas e considerou apenas os defeitos de sua própria personalidade! 

Assim sendo, o Diabo seria a representação, digamos assim, substantivada dos próprios defeitos da personalidade humana e quanto que Deus seria a substantivação de todas as características positivas da própria personalidade humana!


02/07/2017

Schopenhauer sendo Schopenhauer



É realmente inacreditável como a vida da maioria dos homens flui de maneira insignificante e fútil, quando vista externamente, e quão apática e sem sentido pode parecer interiormente. As quatro idades da vida que levam à morte são feitas de ânsia e martírio extenuados, além de uma vertigem ilusória, acompanhada por uma série de pensamentos triviais. Assemelham-se ao mecanismo de um relógio, que é colocado em movimento e gira, sem saber por quê. E toda a vez que um homem é gerado e nasce, dá-se novamente corda ao relógio da vida humana, para então repetir a mesma cantilena pela enésima vez, frase por frase, compasso por compasso, com variações insignificantes.


Arthur Schopenhauer


18/06/2017

Conhecendo a Biblioteca de Araras-SP


Depois de algum tempo morando na cidade de Araras, tive a curiosidade de conhecer as várias salas da Biblioteca Municipal Martinico Prado.

O espaço é limpo e bem organizado. Para testar a disponibilidade de livros, perguntei à bibliotecária se havia obras de Nietzsche. Após consultar o sistema, informou que existiam apenas três: uma biografia, Nietzsche para estressados e Quando Nietzsche chorou. Nenhuma obra escrita pelo “filósofo do martelo”. Sem problemas — isso não diminui a importância do local.

Ainda bem que possuo muitos livros em casa, e talvez esse seja um dos motivos de ter demorado tanto para conhecer a biblioteca da cidade. Antes de me despedir, agradeci e perguntei se poderia tirar uma fotografia do ambiente, apenas como lembrança. A resposta foi lacônica: não.

Surpreso, questionei a razão da negativa. Ela explicou que havia muita gente “má intencionada” e, por isso, não era permitido. Argumentei que não via motivo para tal proibição, já que o espaço estava bem apresentado. Se fosse um museu, onde o flash pudesse danificar obras, até entenderia. Mas não era o caso. Reforcei que minha intenção era positiva, mas, firme, ela disse que eu precisaria de autorização especial da prefeitura para registrar imagens daquele ambiente público. É claro que desisti da fotografia.

Fiquei pensando: será que também precisarei de autorização para fotografar o Lago Municipal, o Parque Ecológico ou o caça Mirage em frente ao Ginásio Municipal? Estranho, não?

A história pode ser irrelevante, mas achei importante deixá-la registrada aqui no Blog Banal, como lembrança dos conceitos desta época.



10/06/2017

Sobre o paraíso

Imagine que você acorda sonolento, abre os olhos e percebe estar em um lugar paradisíaco.

A temperatura é agradável, a visão deslumbrante, e uma sensação de bem-estar nunca antes sentida envolve o corpo.

Ao olhar em volta, nota a presença de outras pessoas, mas nenhum rosto familiar.
Mais adiante, grupos conversam animadamente, transbordando alegria e amizade.

Diante da solidão, você decide caminhar entre os jardins floridos, na esperança de encontrar algum parente ou amigo naquela manhã tão agradável.
Depois de muito procurar, percebe que não há ninguém conhecido naquele cenário deslumbrante.
É como estar em uma festa cercado de estranhos.

Apesar da beleza do lugar, nasce a necessidade de reencontrar aqueles que tornaram sua existência mais suportável, de compartilhar com eles tais sensações.
Mas, enfim, descobre que seus filhos, parentes e amigos não estão ali.
Ao contrário, encontram-se em um espaço terrível, marcado por calor insuportável e dor incessante — todos os dias, para sempre.

Nesse momento, alguém se aproxima para consolar:
— Não se preocupe com os seus. Você salvou a sua vida, e isso é o mais importante.
— Seja feliz eternamente. Seus filhos e amigos tiveram a mesma chance que você. Agora recebem o castigo que merecem. A culpa não é sua. Sorria: você conquistou o maior prêmio, a vida eterna.


03/06/2017

O problema é a vida?


Primeiro, pensei que o problema fosse a segunda-feira.
Depois, desconfiei que fosse o mês de maio.
Hoje percebo: o problema talvez seja a própria vida.



07/05/2017

Meu celular, meu carrasco.



O celular desobediente despertou-me às 6h30. Que absurdo! Hoje é domingo e, por um lapso, esqueci de desprogramá-lo. Acordo cedo todos os dias, mas justamente hoje não queria ser lembrado pelo carrasco que me acompanha e dita o meu precioso e finito tempo. Tudo bem, acontece.

Com o passar dos anos, percebo que suportamos melhor a vida metódica, programada e cheia de normas. Não digo que a aceitamos — apenas que a suportamos.

Pensando bem, talvez eu exagere. No fundo, já me acostumei com o destino. Seria essa reconciliação o tal amor fati de que falava o filósofo do martelo?

A cama estava agradável, convidativa. Estiquei o braço e, com a ponta dos dedos, silenciei fulminantemente o meu tirano, com a satisfação de quem vence o inimigo.

Ah, se eu tivesse o poder de silenciar tudo aquilo que não quero com apenas um toque no gatilho da justiça!

Alex, Outono de 7/5/2017


06/05/2017

É sexta-feira!




Missão cumprida.
O corpo caminha lentamente pelos corredores, acompanhado por diálogos internos e pela eterna esperança de dias melhores.

Anoitece rápido.
O crachá, na ponta dos dedos, aguarda liberar a saída provisória — chave que abre algemas invisíveis.
No estacionamento, a moto solitária e molhada espera como um cavalo mudo e obediente.

É sexta-feira, o trânsito se adensa.
Do lado de fora, rostos estranhos, olhos arregalados atrás dos capacetes, avançam com mais vontade pelo asfalto.
Os ponteiros do relógio giram sem cessar.
O tempo e a necessidade são algemas invisíveis.

Sigo entre o asfalto, a cama e a catraca.
Anoitece de novo.
E sigo, mais uma vez, entre o asfalto, a catraca e o asfalto...

Eterno retorno.

Alex, 05/05


09/04/2017

Sobre a amizade

Amizade é uma coisa boa, mas nem sempre é possível ter amigos.

Desde criança, sempre tive poucas amizades. Meus contatos se resumiam aos irmãos, primos e, eventualmente, algum vizinho. Na adolescência, morando no interior do Rio, o aglomerado de casas e pessoas próximas favorecia, em tese, a aproximação. Porém, mesmo nesse ambiente fértil, eu não conseguia fazer parte de grupos maiores que duas ou três pessoas. Minha interação com os outros sempre foi limitada e circunstancial.

O tempo passou e hoje vivo praticamente para o trabalho, minha pequena família, um cachorro, um gato, meus livros e a internet. No trabalho, as amizades duram o tempo exato da carga horária. São alianças de interesses mútuos dentro das paredes corporativas: companheirismo, respeito, colaboração e até humor. Mas a pressa e o foco não deixam espaço para conversas mais elaboradas, reflexivas e tranquilas sobre a vida. Tudo ocorre na velocidade dos ponteiros do relógio. Na vizinhança, também não tenho amigos — apenas compartilhamos a mesma rua e o mesmo ar.

Não critico essas alianças. Elas são importantes: ajudam, sustentam, protegem e possibilitam a sobrevivência. Na selva do mercado, talvez tenham mais valor do que a amizade tradicional. Durante minha existência, tive muitos conhecidos, poucos amigos e boas alianças.

Na juventude, eu gostava de sair para as festas tradicionais da cidade. Era a diversão possível, sem dinheiro e sem carro. Lembro que tinha apenas dois colegas na mesma situação: saíamos juntos para conhecer meninas, franguinhos de granja estreando na arte da paquera, com vergonha, pouco dinheiro e muitos hormônios.

Com o tempo, tornei-me independente. Os amigos se foram e aprendi a gostar de ir sozinho aos lugares. Escolher o próprio caminho não tem preço — é a sina dos espíritos livres. Em minha cidade natal, ainda tenho um amigo de longa data, que visito uma vez por ano nas férias. Mas a distância não favorece o contato frequente, e a vida segue.

Conhecidos, tenho muitos — herdados do bairro, da escola ou do trabalho. São relações casuais e breves. No geral, sabemos pouco uns dos outros: o local de trabalho, o bairro onde moram, o time de futebol. Resumindo, descubro apenas se estão vivos, doentes, velhos ou mortos.

Outro dia li Rubem Alves sobre envelhecer. Ele dizia que chamar a velhice de “melhor idade” só pode ser invenção de um demônio zombeteiro disfarçado de anjo. Velhice é quando passamos a ser tratados como “objeto de respeito” e não mais de desejo. E o que ele queria não era respeito, mas desejo.

Voltando à amizade, classifico-a em três tipos: circunstancial, interesseira ou motivada pela admiração. O termo parece ultrapassado; talvez precisemos reinventá-lo. O maior exemplo da banalidade da amizade hoje é o Facebook.

Na juventude, buscamos rebanhos. Com a maturidade, o cansaço do trabalho, o peso da idade e os interesses diferentes, inevitavelmente nos afastamos. Veja como os velhos são solitários. O segredo talvez seja o autoconhecimento, a autoestima e aprender a gostar da própria companhia. Fácil dizer hoje; só saberei se funciona quando chegar lá.

Na rede social, já tive mais de 300 “amigos”. Reduzi para cerca de 100. Não virei inimigo dos excluídos, mas percebi indiferença. Alguns nem me cumprimentavam na rua. Se você está numa rede de interação, o mínimo esperado é interação. Publicar pensamentos e ver pessoas apenas monitorando em silêncio, como cadáveres ou espiões, não me serve.

Hoje me sinto bem com poucos amigos. Gosto da vida (às vezes não), da literatura e da filosofia. Pessoas solitárias compensam o déficit social com atividades intelectuais, e isso pode ser tão prazeroso quanto relações que nada acrescentam. De vez em quando vou a um churrasco da empresa e até gosto. Quem me lê pode pensar que sou hermético, mas não é verdade. Em certas circunstâncias, sou receptivo e bem relacionado.

Nos livros encontrei companhia: autores que conversam comigo, ensinam e me fazem pensar. No mundo virtual, grupos de discussão espalhados pelo Brasil também oferecem boas trocas intelectuais.

Hoje me conheço melhor e me suporto. Não forço amizades em troca de likes ou atenção. Descobri que bons relacionamentos dependem de afinidade e circunstâncias.

Moro no interior de São Paulo há oito anos e percebo que, em geral, as pessoas daqui não gostam de conversar. Na cantina do trabalho, puxo assunto para evitar o silêncio, mas muitos respondem de forma lacônica ou saem apressados, como o coelho branco de Alice no País das Maravilhas. Há exceções, claro, e alguns sabem conversar bem nos breves intervalos. Mas o relógio, carrasco do tempo, não perdoa.

Gosto de conversas que continuam na cabeça mesmo depois que a pessoa se afasta. Isso é sinal de que valeu a pena. Se não deixam nada e ainda nos fazem sentir pior, melhor nem ter encontrado. Relações boas devem ser saudáveis e satisfatórias.

Ufa! Sem querer, virou textão. Essas eram as banalidades que estavam na minha mente quando sentei diante do notebook. O assunto pode continuar em outra ocasião, porque ainda tenho muito a dizer sobre esse tema demasiadamente humano. Mas fica para depois. Poucos terão paciência para ler até aqui.

Até a próxima!

08/04/2017

Janer Cristaldo sobre Nietzsche



Sobre Nietzsche, outro autor que não se encontra na universidade, vou reproduzir texto que escrevi há uma década. Meus professores de Filosofia não gostavam do alemão, ele demolia todas as filosofias. Cá e lá ele era citado, afinal não podia ser ignorado. Mas nunca tive professor que recomendasse Nietzsche em suas bibliografias. Para mim, foi autor decisivo em minha vida. É leitura, penso, que deve ser feita quando se é jovem. Não sei se adianta ler Nietzsche aos trinta anos. Também não sei se seria útil a um jovem contemporâneo. Em minha época de universitário, pensamento se demolia com pensamento. Hoje, os meios de comunicação se encarregam deste trabalho de demolição.

Aconteceu nos dias de Porto Alegre. Um colega um tanto inquieto, cujos interesses oscilavam do pugilismo às matemáticas, me abordou com o olhar desvairado. Empunhava um livro com verve. "Tens de ler este alemão. Urgente". Era o Ecce Homo - Como se chega a ser o que se é, de Nietzsche. Seriam umas dez da manhã. Acostumados àqueles humores repentinos, pensei dar uma vista de olhos no livro, para que meu instável amigo não mais me chateasse. Já no índice, comecei a irritar-me. Primeiro capítulo: porque sou tão sábio. Segundo: porque sou tão sagaz. Terceiro: porque escrevo bons livros. O último capítulo, uma pergunta: porque sou uma fatalidade?

É o tipo de introdução que convida o leitor desavisado a jogar o livro longe. Mas uma música qualquer, uma cantata de eremita que volta do deserto, emanava das páginas sublinhadas com fúria naquele livro ensebado. Deixei-me levar pela música, fui entrando na atmosfera rarefeita do pensador. "Ouvi-me!" - alerta Nietzsche já na introdução - "eu sou alguém e, sobretudo, não me confundais com qualquer outro".

Mergulhei com fúria na leitura. Sentia estar perto de algo vital. Este livro, no qual o alemão furibundo se apresenta aos pósteros com as palavras com que Pilatos entrega o Cristo às turbas - Eis o Homem - foi escrito pouco antes de seu mergulho na loucura. É certamente o pensador que com mais energia lutou contra a hipocrisia do cristianismo e contra o próprio Cristo, a ponto de assinar-se, em seus dias de insanidade, como o Anti-Cristo. Ao falar da morte dos deuses pagãos, completava: sim, os deuses gregos morreram. Morreram de rir, ao saber que no Ocidente havia um que se pretendia único.

A manhã se foi, entrei meio-dia adentro, esqueci de almoçar e, lá pelas três da tarde, tive de engolir esta: Não me são desconhecidas as minhas qualidades de escritor; em determinados casos compreendi como se corrompia o gosto com o manuseio de minha obra. Acaba-se, simplesmente, por não suportar mais a leitura de outros livros, pelo menos os filósofos. (...) Disseram-me que é impossível interromper a leitura dos meus livros, porque eu perturbo até o repouso noturno. Não existem livros mais soberbos e, ao mesmo tempo tão refinados quanto os meus.

Vontade de jogar fora o livro. Mas já era tarde demais para voltar atrás. Procurei imediatamente as obras completas do autor. Primeira escala, Assim falava Zaratustra: "Exorto-vos, meus irmãos, a permanecer fiéis à terra e a não acreditar naqueles que vos falam de esperanças supraterrestres". Zaratustra é o eremita que, ao voltar da montanha, encontra um santo em uma cabana no bosque, que entoa cânticos para louvar a Deus. O eremita se espanta: "Será possível que este santo ancião ainda não tivesse ouvido no seu bosque que Deus já morreu?"

Para um jovem sufocado pela propaganda de Roma, sorver Nietzsche era como beber água límpida, não poluída pelos construtores de mitos. Passei inclusive a estudar alemão, para degustar no original seus ditirambos. Mas a vida tem outros projetos para os que nela entram, e acabei aprendendo sueco. De qualquer forma, Nietzsche foi decisivo para minha libertação. Títulos como A Origem da TragédiaO Crepúsculo dos ÍdolosHumano, Demasiado HumanoAlém do Bem e do MalAnti-Cristo já antecipam o que este doublé de filósofo e poeta se propõe.

Postumamente, publicou-se uma versão apócrifa de Vontade de Potência, devidamente adulterada por sua irmã, Lisbeth Förster-Nietzsche - que morreu refugiada no Paraguai - para atender aos interesses do nazismo. Durante boa parte deste século, Nietzsche, inimigo jurado de filosofias coletivistas, foi associado ao nazismo. Principalmente pelos marxistas, que intuíam em seu pensamento uma condenação avant la lettre dos regimes socialistas. Esta associação é desonesta.

Basta lermos as invectivas de Nietzsche aos alemães e à cultura alemã em Ecce Homo, para descartarmos este absurdo: "Em Viena, em São Petersburgo, em Estocolmo, em Copenhague, em Paris, em Nova York, por toda parte estou descoberto: não o estou somente no país mais ordinário da Europa, a Alemanha". Ou ainda: "Por onde quer que passe, a Alemanha destrói a cultura". Cabe lembrar que Nietzsche nasceu em Röcken, Prússia.

Este autor, dificilmente você encontrará nos currículos universitários. Seu pensamento demole sistemas, e a academia adora o pensamento sistematizado. Tampouco serve para criar qualquer espécie de culto ou religião: Zaratustra não quer discípulos. Nietzsche fala a homens livres, capazes de respirar a atmosfera das grandes alturas, que não temem a intempérie metafísica e dispensam muletas espirituais.

Há cento e nove anos, morria Nietzsche. Nestes dias em que uma nova inquisição, o pensamento politicamente correto, quer impor sua vontade, o Anti-Cristo certamente lhe renderia uma carrada de processos. Este livro, que escandalizou - e ainda escandaliza - a Europa, é uma contundente catilinária contra o Cristo e seus discípulos e um entusiasta elogio de César, Nero, César Borgia, Napoleão e Goethe. Nas páginas finais, lemos um projeto de Lei contra o Cristianismo, dada no dia da Salvação do ano Um (a 30 de setembro de 1888, pelo falso calendário).

E por aí vai. Leia Nietzsche. É salutar. Mas atenção: de nada adianta lê-lo aos cinqüenta. Aos cinqüenta, ou você há muito se libertou... ou está definitivamente perdido.

Janer Cristaldo

Nota deste autor do Blog Banal sobre a última frase: Será que estou perdido? Se estou, agora é tarde. 

06/04/2017

Meus livros sobre Nietzsche



Finalmente retomei a leitura de Nietzsche. Há algum tempo seus livros repousavam na estante. A primeira constatação é que essa leitura não avança como as demais: certos conceitos precisam ser ruminados, exigem calma e interpretação antes de se virar a página.

Minha primeira tentativa ocorreu no ano passado, com Assim falou Zaratustra. Comecei pelo mais difícil e, ao chegar à metade, percebi que não estava absorvendo. Faltava-me uma base intelectual para compreender seu pensamento. Abandonei a obra, consciente de que seria preciso preparar-me melhor e retornar no tempo certo.

Gosto de filosofia, e Nietzsche sempre me apontou uma direção compatível com meus próprios questionamentos. Descobri que não se lê Nietzsche: aprende-se com ele. Sua leitura requer paciência e fundamentos prévios. Para isso, recorri a literaturas de apoio e a vídeos que me ajudaram a compreender o alemão.

Outro ponto essencial é a escolha do tradutor e da editora. As melhores edições são da Companhia das Letras, traduzidas por Paulo César de Souza, que recebeu dois prêmios Jabuti por seu trabalho com Nietzsche.

Hoje não vou registrar o que estou aprendendo. Isso virá aos poucos, sem pressa. Apenas adianto: estou diante de uma preciosidade que me faz pensar.


01/04/2017

Em que fase da vida estás?


Minha vida se divide em três fases.
Na primeira, meu mundo era do tamanho do universo
E era habitado por deuses, verdadeiros e absolutos.
Na segunda fase meu mundo encolheu,
ficou mais modesto e passou a ser habitado
por heróis revolucionários que portavam armas
e cantavam canções de transformar o mundo.
Na terceira fase, mortos os deuses,
mortos os heróis, mortas as verdades e os absolutos,
meu mundo se encolheu ainda mais
e chegou não à sua verdade final
mas a sua beleza final:
ficou belo e efêmero como uma jabuticabeira florida.



Rubem Alves (1933-2014)