05/09/2019

Plaquinha com número



Quanto tempo permaneci diante desta tela branca!
No início, sentia a obrigação de escrever e acreditava estar realizando algo importante.
Com o passar dos dias, percebi que tudo não passava de desperdício: ninguém queria saber.

Há um registro no Blog Banal afirmando que eu escrevia por prazer.
Meia verdade.
Sim, havia certo deleite em organizar palavras soltas, mesmo com meus tradicionais erros de português — isso é fato. Mas, lá no íntimo, descobri que minha vaidade ansiava, de alguma forma, por reconhecimento, por um comentário que desse sentido às minhas banalidades.

Como fui ingênuo ao esperar esse tipo de atenção!
Tudo bem. Hoje, essas coisas já não têm importância.
Fui imaturo ao desejar um breve e superficial afago em meu ego.

Agora, mais vivido e com menos necessidades, não quero desperdiçar tempo com minha tosca vaidade.

Não busco reconhecimento, tampouco escrevo por autocomiseração.
Tenho outros interesses e, para evidenciar, percebo que já estamos em setembro e esta é apenas a terceira publicação do ano.

É melhor acostumar-me às eventuais dores da coluna e às inevitáveis despedidas, pois em breve serei apenas uma plaquinha com um número — e nada mais.

E isso será tudo. Ou talvez nada.


05/03/2019

Ajuda de arquibancada

Fulano anuncia para a arquibancada em alto e bom som:

  • Estamos à disposição e se precisar de qualquer ajuda, conte com o "time".

Beltrano se alegra e na primeira dificuldade, solicita colaboração e recebe, longe da arquibancada, a resposta insidiosa:

  • Isso não é comigo, pede ajuda com outro!

Fulano! Esse assunto é seu, de seu conhecimento e você pode ajudar...se quiser... e aproveitando que está longe da arquibancada, responda com sinceridade:

  • Você é incompetente, possui má vontade ou sofre dos dois males?

Não precisa dizer nada. Já sei a resposta!!!

Ah! Se eu pudesse falar o que penso ao invés de escrever de forma cifrada!

Para um bom entendedor, uma linguagem cifrada diz mais do que uma dissertação empolada. #prontofalei. Aqui corre sangue!



23/12/2018

Mais um Natal!

Mais um Natal se aproxima, e aqui estou, diante do Blog Banal, registrando minhas banalidades ao teclado, enquanto ouço o sublime Canon in D, de Pachelbel. Linda demais!

Quando eu era criança, o Natal era celebrado com toda a família reunida na casa de minha querida avó.
Ainda guardo uma fotografia emblemática daquele tempo saudoso: todos em volta da mesa farta de comida e bebida.

O peru assado ao centro, a Coca-Cola na garrafa de um litro, e essa imagem já amarelada confirmam a veracidade da lembrança. Provavelmente foi revelada no Foto Brasil, tradicional loja de Barra Mansa, onde subíamos uma escadaria para deixar o filme e aguardávamos, ansiosos, uma semana inteira até retornar, torcendo para que não houvesse muitas “poses” queimadas. Chamávamos as fotografias de “poses” — e ríamos disso.

Para completar a mesa, havia latas de doce de pêssego em calda e creme de leite Nestlé, que meu avô adorava. O vinho vinha em garrafão de cinco litros, e ninguém reclamava da qualidade.

O tempo passou, e a linha invisível que unia toda a família foi rompida com a morte dos avós. Mas as lembranças permanecem, perenes.

Ah, o tempo! Esse grão invisível de areia que separa, dissolve famílias, relações, vontades — e, por fim, a própria vida.

Aquela mesa jamais será restabelecida, mas deixou sua marca em cada cabecinha que a cercava.
Daquele tempo, restaram apenas a fotografia, as memórias e o meu português imperfeito.

Hoje, continuo celebrando o Natal com minha esposa e dois filhos, e faço questão de manter a tradição da mesa, pois esses momentos se tornam eternos.

Por motivos profissionais, estarei junto da família materna apenas na comemoração de fim de ano.
Tenho certeza de que meus filhos também guardarão essas lembranças, mesmo que a famosa linha invisível do tempo e a distância os separe.

07/12/2018

Mudou o Natal ou mudei eu?


Quando eu era jovem, não perdia essa festa; quase todos aguardavam com ansiedade por esse momento.

Havia três anos que eu não comparecia e, neste ano, resolvi retornar, movido pela expectativa saudosa de reviver os velhos tempos. Ledo engano.

Identifiquei-me na portaria e, a cada degrau avançado, a música se tornava mais intensa.
Segui em direção ao buffet, farto de bolinho de bacalhau, queijos variados, salgados e cerveja gelada à vontade.

No palco, dançarinas e músicos animavam o ambiente. No piso, grupos se formavam conforme afinidades e interesses, enquanto eu não conseguia me encaixar em nenhuma tribo.

Distante e já arrependido de ter ido, permaneci isolado. Embora houvesse alguns conhecidos espalhados pelo salão, preferi ficar comigo mesmo: observando, degustando e bebendo minha cerveja no meu ritmo. Definitivamente, eu não estava bem, nem disposto a me aproximar das pessoas.

Após duas horas, acenei de longe para poucos rostos, levantei-me e fui embora à francesa.

Adaptando Machado de Assis, em certo soneto:
“Mudou a festa ou mudei eu?”


02/11/2018

Ando sumido mas ainda estou aqui!

Depois de seis meses distante das letras, retorno a este meu Blog.
Estive ausente, mas sigo vivo.

Que ano!
Jamais, em toda a minha vida, envolvi-me com tanta intensidade nas eleições presidenciais como agora.
Fiz campanha de graça, movido pela crença de que ainda é possível um Brasil melhor.

Cheguei a pensar que minha esperança havia se esgotado, como o resto de café frio no fundo da xícara. Felizmente, me enganei.
Para minha surpresa, ainda acredito em dias melhores.

Esperei a eleição como um noivo aguarda a esposa no altar.
Caminhei até a urna com vontade e ansiedade, e o resultado me inundou de esperança: talvez dias melhores ainda sejam possíveis.

Creio que esta seja minha última esperança.

Transforme o país e não nos decepcione.



27/02/2018

Sonhei que voava!


Tenho uma vida banal e, à noite, sonho. Humanos sonham.
Sonhei novamente que voava — um sonho impossível, mas de suavidade arrebatadora.
Recordo com prazer cada detalhe dessa aventura de olhos fechados e mente leve.

Tomava distância e corria como um velocista em direção ao nada.
Batendo os braços com força, para cima e para baixo, até que meus pés se desprendiam do chão e eu ganhava altura.
Suspenso no ar, corpo estendido, abria os braços suavemente e deslizava como um pássaro.
A gravidade deixava de existir; eu me estabilizava no ar e avançava sem obstáculos.

Voava seguindo o traçado das ruas e, do alto, observava as pessoas distantes.
Elas corriam e me acompanhavam com curiosidade.
A sensação era intensa, agradável, libertadora.

Não costumo atribuir significados especiais aos sonhos, mas talvez este revele um desejo inconsciente de liberdade, de escapar ao peso das preocupações e obrigações.
Não sei se há relação, mas admito que a hipótese faz algum sentido.

Assim encerro a minha bobagem de hoje.

08/02/2018

Noite miteriosa


Entrei em casa e ela não me notou.

Estava quieta, olhando-me de soslaio.
Não se aproximou, permaneceu imóvel.
Algo estranho acontecia.

Nenhuma palavra, apenas olhos que me evitavam.
— O que poderia ter acontecido? — pensei.

Aproximei-me, tentando decifrar aquele ar misterioso.
Ela continuava calada. Nenhuma pista.
— O que eu fiz de errado?

Abri a geladeira, estiquei as mãos e escondi o gesto, só para aguçar sua curiosidade.
Finalmente, me olhou com desejo.
Seus olhos brilhavam.
Encostou-se lentamente em minha perna, como quem seduz.

Não resisti e sussurrei:
— Sofia, tenho algo que você adora.

Abri o sachê de carne e despejei o conteúdo em sua vasilha.
Sofia devorou como uma louca e, feliz, me olhou.

Ela me ama.


19/01/2018

Deus é amor!


Imagine um marido que diz à esposa:

— Olha, minha querida, você sabe que eu te amo muito e que lhe dou toda a liberdade para ficar comigo aqui. Você pode ir embora quando quiser, eu não me importo. Você é livre, pode escolher...
Eu te amo demais, mas se você for embora, eu lhe dou um tiro na cabeça!
Mas, nesse caso, a escolha foi sua...

Na minha misericórdia e amor por você, estou humildemente avisando: se permanecer nesta casa, será bem tratada, bem cuidada, nada lhe faltará e eu a amarei, porque o meu amor por você é absoluto!
Mas, se escolher partir... bem, será uma escolha sua. Lembre-se de que estou oferecendo todas as condições para que viva bem comigo...




27/12/2017

Flores Negras


Caminho por becos escuros e pedras molhadas
Rochas lisas e paredes mofadas
Noite fria e silenciosa
Flores negras cravadas nas pedras 
Selva com flores mortas 
Muitos gritos abafados 

Gritos sem necessidade 
Gritos sem desculpas 
Gritos sem piedade
Gritos que machucam

Flores murchas pelo caminho
Flores negras sob a chuva
Flores sem perfume
Flores sem vida
Flores,flores,flores!

Gritos que matam
Gritos que enterram o prazer
Flores negras pisadas no escuro
Flores negras que adornam o túmulo
Silêncio absoluto! 
O grito não é mais ouvido
O grito não mais importa
Nunca mais desrespeitado
Gritos sem ecos
Flores negras sobre a pedra
Ah! como eu gostaria de me encontrar
Antes que eu desapareça.



Esses versos são de autoria de Alex Gil

17/12/2017

Tua força de vontade te salvou


Madrugada de sábado.
Disparo da cama sonolento em direção ao banheiro.
Estico a mão na torneira e aciono a alavanca que libera o jato de água.

Um pequeno inseto negro, semelhante a um besouro, sobe pela louça úmida da pia.
Minha mão, obedecendo a um impulso inexplicável, direciona o fluxo contra ele.
A operação é bem-sucedida. Não comemoro, tampouco me entristeço.
Lavo as mãos de forma automática, fecho a torneira e retorno à cama.

O relógio avança pela noite silenciosa.
De volta ao mesmo ritual, encontro novamente o inseto, insistente, tentando escalar a superfície lisa.
Mais uma vez, a corrente o empurra ao fundo da pia até desaparecer.
Adormeço pela segunda vez.

Ao amanhecer, sigo ao banheiro.
Lá está o inseto, agitando freneticamente as patas, sem sucesso.
Pela primeira vez reflito sobre aquele instante e, do alto de minha “onipotência”, determino:
— Este inseto merece viver.

A mesma mão que tentou eliminá-lo o transporta até um local seguro, à sombra do muro.
— Tua força de vontade te salvou. Mereces viver. Vá em paz.

Alex, 17/12/2017


08/10/2017

Anjos de férias?



Recentemente, conversei com uma pessoa próxima que acredita em anjos. Perguntei por que esses supostos anjos não atuaram na tragédia da creche de Janaúba, quando um funcionário ateou fogo em crianças e em si mesmo, matando oito pequenos, a professora, além dele próprio, e deixando vinte e quatro pessoas internadas.

As respostas, naturalmente, não me convenceram.
Sou uma pessoa cheia de defeitos e limitações, mas certamente arriscaria minha vida para salvar aquelas crianças das chamas. Não suportaria assistir ao sofrimento tendo o poder de evitar e, ainda assim, nada fazer.

Quando um evento termina bem, logo se atribui à ação de forças sobrenaturais, como se tudo estivesse sob “controle”.
Quando termina mal, reina o silêncio, surgem desculpas contraditórias ou a desonestidade intelectual.

Definitivamente, meu cérebro funciona de outra forma.
E confesso: estou com pouca paciência para explicações convenientes.