12/10/2025

Final de domingo

Eis que se finda mais um domingo.

A Roda, implacável, não cessa o seu movimento. Segunda-feira, Terça-feira, Quarta-feira... Chegando, afinal, à Quinta-feira, Sexta-feira, e outra vez a Sexta-feira, qual alento breve.

Verão, Outono, Inverno. A sucessão das estações não nos concede trégua. Chuva, Sol, Frio, Calor. A natureza é a única a se permitir a mutabilidade.

Ano Novo, vida nova? É a vida, porventura, reduzida a laborar, dormir e laborar? Existimos apenas para descansar a fim de trabalhar, e trabalhar para merecer o descanso?

A fadiga é o único prêmio que nos é conferido ao findar de cada jornada. Despertamos para resolver os problemas que nos assaltam; dormimos apenas para reunir forças e enfrentar novas tribulações. Os problemas da mente atormentada e os revesses do mundo palpável.

O Relógio, este tirano de ponteiros, não cessa a sua marcha.

Feliz Aniversário, Feliz Natal! Feliz Ano Novo! — Fórmulas ocas, repetidas ad infinitum.

Faltará muito para que chegue, enfim, a Sexta-feira? Faltará, Diletos, muito para que tudo se finde de uma vez?

Final de semana

 

A jornada se arrasta com a lentidão agonizante do ponteiro das horas. Tudo se revela numa repetição enfadonha, qual um roteiro teatral a quem foi subtraída a derradeira página.

A via pública, entregue a um silêncio desolador, jaz deserta. No recinto dos lares, cada alma se confronta com seu próprio tédio, seu próprio marasmo. É a narrativa que se obstina em repetir-se: o final de cada semana é aguardado numa expectativa infinita, apenas para ser consumido por esta monotonia sem fim.

O leito, este refúgio pernicioso, surge como um convite sedutor a que não se contemple o esvaecer do dia.



14/04/2023

Macanudo Zé Marcino

Antes de começar a estória, deixe-me contextualizar o leitor. A estória abaixo é baseada em personagens reais de uma empresa onde trabalhei por muito tempo.


O Macanudo Zé Marcino andava mais sumido que fio dental em polpa de china gorda, pois vivia escondido no retiro Rincão da onça-pintada, capivara, cutia, tamanduá e araras. Só queria saber de contar nos dedos grossos, quanto tempo ainda faltava para cultivar suas aves selvagens no xilindró de arame fino e madeiras finas de flecha-de-ubá, taquara e embaúba, avolumando seu monte pascoal abdominal e morrendo de medo de ser demitido.

Escute Macanudo, pois vou falar apenas uma vez: pega seu petiço, carrega o fiambre e dirige pra lá, para cuidar do ataúde daquele povoado às margens do Rio Paraíba que vâmu fechá aquela tapera de 70 anos, que tá veia demais pra recauchutar e num temos mais denarius para jogar lá.

Num Upa, com seu corpanzil avantajado, pançudo, bafo de túmulo e bueiro, jeitão desajeitado e sorriso bestial, recebe a enxada, pá e xerenga, do índio velho e determina: vá engendrar o jazigo perpétuo daquela cidade “imunda” e povo alegre demais pro meu gosto, pois prefiro o povo traíra de nossa terrinha, que num dá bom-dia, faz cara de merda e abaixa a cabeça oiando pru pé.

E tem mais Macanudo: - Enfia o relho, aperta o estribo e elimina os queixo-duro, pois depois de ti, tudo estará morto, oco e árido, avisa o índio velho caudilho num momento de lucidez e visão futura.

Até hoje, nenhum verme que primeiro roeu as frias carnes de Brás cubas, sobrou vivo na terra vazia, oca e desértica, prá contar que encantos eram estes que nosso chistoso Macanudo tinha que agradou por demais o índio velho, a ponto de oferecer um linda recompensa em final de carreira, que nenhum xerife do oeste, nem do leste, jamais ofereceu, para que um jagunço quase aposentado, mal ajambrado, com chapéu de palha, caniço, pezão no chão e dedo grosso, fosse ressuscitado para uma missão tão “nobre” e fúnebre. Esse jagunço sortudo não cansa de contar pra todo mundo que prefere uma enxada que uma pena ou teclado. Êta Chico bento sortudo este!

Vai entender o que se passa na cabeça de um índio velho...

Nosso zarro herói, embretado nessa missão, enfrenta os grandes temas que estavam por vir nos próximos 6 anos, haraganeando aos enleios do computador, os chasques pela internet, o esmirrado telefone celular, o dedo duro e grosso golpeando as teclas sensíveis do computador, e-mails e muitos jornais, a solidão chocha da sala gerencial climatizada, o soninho habitual depois do almoço, que teimava em fechar seus olhinhos durante à tarde, os milagres guindásticos do Viagra prá brincar com as gurias da Paulicéia no Blue Tree Towers, seu motel preferido, ops, o hotel favorito da Avipam, a preocupação com o Corola e o xenon paraguaio, as urupucas e o sibilo dos pássaros trinca-ferros, sabiás e curiós, a mente bucólica de um caipira perdido na urbi et orbi, a alcoolemia das segundas-feiras, a paciência homérica da profitente para ensinar-lhe o idioma anglo-saxão e suportar seu terrível aflato. E olhe, que se a professorinha auto-falante, desse mole, nosso herói passava o caniço na coitada, como preparativo para os surungos anuais e suas birinaites.

E nisso, caro leitor, nosso herói pára-quedista casual não está solito nesse entrevero. Comparece em sua história como convidado especial por um bom tempo, para contribuir e preencher o ócio de nosso xerife impostor. Este elemento viria a se tornar seu comparsa e especialista em sege da era moderna, seu segundo hobby, depois dos penosos. A propósito, este jagunço era ajudante de faina, conhecido como Joestino Guajuvira Sampinho, ou para as más línguas: Gaudério do administrativo. Era diáfano, delgado, sabujo e alpinista social. Sabia tudo da invenção de Henry Ford e dabliú-V, hehehe...é VW!, sua segunda paixão... E tem mais, não era um sujeito lhano, vez que esse guasca era um verdadeiro guaipeca tramposo e bajulador.

Este Gaudério, como bom pára-quedista e oportunista, caiu literalmente nas graças deste sabujo inseguro, com sua cabeça de zéfiro e miolos de geléia. Nosso herói tocava sua vidinha, como uma viola obediente aos acordes de um experiente músico, na maior tranqüilidade, porém correndo riscos e esquecendo-se de envolver-se com a missão transmitida pelo velho índio. Mas isso não era pobrema, no linguajar de nosso super-herói, pois este homem tem muita sorte e corpo fechado. Sempre esteve cercado de gente forte e competente que o carregava e o sustentava 6 anos consecutivos. Consegue apropriar das estrelas, selos de qualidade (certificações), quadros e até aparecia em várias películas fotossensíveis com sorriso de Shrek, roubando os louros de seus criados.

Nosso super-herói tem a vida que sonhava e não remascava em outra coisa senão nos seus passarinhos, seu ótimo salário, aparar seus pedaços de unha de mão cortada à mesa, cuidar da obesidade de sua conta bancária, seu automóvel com placa de bicho de pena colorida que voa na cidade preferida do índio velho, brigando com o teclado e bebendo sua cachacinha da boa que passarinho num bebe e com seu relógio que teima em rodar devagar, pospondo a volta do Macanudo Marcino à terra do povo hermano de Rio Claro, Pirassununga e Moji-Mirim. Êta revelação do inferno que o índio velho teve. Este sonho custou muito caro para o povo do engenho fluminense. Como nossa ralé sofreu com Macanudo! Foi ducaráio sua longa e desastrosa estadia em nossa terra. Nosso povo conhecia suas indecências e não podia fazer nada. Esta cumplicidade custou muito caro. O pêndulo movimentava, para a direita e para a esquerda...O sarcófago estava sendo construído...Nosso gólgota estava sendo feito no nº 655...

Sofremos mais que Geni do Zepelim gigante de Chico, recebendo patola de bosta na cara, como retorno por tudo que fizemos. Quanta ingratidão! Muito se pergunta, se se ouvida de seus compromissos, por hebetismo, despreparo ou incapacidade...Ou tudo isso junto e mais um pouco...

Mas nada assusta mais esse guasca agora, que só treme a perninha fina quando o índio velho faz perguntas sobre a dipiei ou algum detalhe do coalho, da massa da westfália ou alguma contaminação no engenho. Pena que o Zepelim Gigante não voltou logo para levar este verdadeiro encosto tranca-rua, ou melhor tranca-fábrica, todo lambuzado com tudo aquilo que Geni ganhou do povo...

Como sofre e faz sofrer nosso perdido herói, contando os dias prá aposentar, totalmente baldado na urbe, alheio a tudo e a todos. Nosso valente herói vivia tremendo o beicinho e enxugando gotas de suor na testa, quando índio velho cobrava sua missão no engenho. Numa certa tarde chuvosa, a dupla de haragano, aquele gaudério puxa-saco que apareceu como convidado no início de nosso calvário, foi ao roçado familiar, para esquecer do ofício, usando o coturno branco da fabricação, subtraído do almoxarifado da dipiei, aos olhos enviesados e perplexos dos colaboradores que seguem princípios morais socialmente aceitos com a cara rubrada, por possuir um anti-herói, capaz de superar Macunaíma, o herói sem nenhum caráter, a léguas de distâncias...

A tarde de nosso Macanudo e do gaudério foi por demais aprazível! O roçado tinha muitos pássaros e o celeiro estava cheio de alimentos. Tinha pacova, milho, macacheira, aluá, cachirí, maparás e uma piraçununga envelhecida que encheu a boca de saliva, deste nosso beberrão e comilão...Era gota de vontade escorrendo pelo cantinho do sorriso bestial e escorrendo pela face, como artérias de um fino rio Cotiara. Não faltava mais nada pra satisfazer Macanudo. Ele gostava muito de cavaquear e dormir com a barriga roliça voltada pra cima, como um Sancho Pança, olhando para o zênite...Ali era mais feliz que Poliana, aquela exagerada otimista chatíssima que as adolescentes conhecem muito bem. Do seu lado direito, estava o gaudério com as mãos ocupadas com o saco de seu protetor, sendo mais fiel que rocinante e Sancho Pança juntos. Ali, saciado das delícias do roçado, Macanudo adormeceu e sonhou... Sonhou que teria uma nova Missão...Coitado de nosso herói...ainda bem que foi apenas um sonho...a estrada te espera!

Macanudo matou a saudade do cheiro da terra molhada e do cabo da enxada, sua ferramenta preferida da terra onde foi parido e nunca deveria ter saído, para o bem do povo barra-mansense!

Macanudo, sua estória em nosso engenho é longa, dramática, estéril e forjada pelo medo e desesperança. Não iremos continuar a partir desta, pois sofremos demais com sua infeliz companhia. Nosso povo oferece uma última homenagem e torce para que esqueça Barra Mansa, uma cidade que o acolheu muito bem. Perdemos tempo demais com o senhor e esperamos nunca mais escrever sobre sua pessoa, prometemos. Precisamos cuidar de nossa vida a partir de agora e você da sua, longe daqui, de preferência, muito longe mesmo. Por favor, esqueça-nos, pois desejamos recuperar nossa lucidez no mar da impotência e injustiças que vivemos na sua companhia e ter paz de espírito e um ano 2008 muito melhor. Não esperamos consolo ou apoio psicológico contratado, pois recusamos as palavras mecânicas ditas por “motivadores” com tarefas dirigidas e idiotizadas de barbantinhos e mãos dadas! Nem desejamos “gratidão financeira” depositada em conta bancária...Nada quitará o deserto psicológico que nos causou com o fechamento da fábrica. Enfrentaremos o novo tempo e o peso da realidade sem a ingenuidade de acreditar que pertencíamos a uma família...Hoje somos mais maduros e vamos suportar com esperança o deserto e aridez que deixou em nossas vidas... 

02/04/2023

Domingo de céu azul


O quarto está escuro. Acordo e ligo o abajur. É domingo de novo e, confesso, eu nem sabia. Abro a janela e a surpresa: a cor azul de um céu limpo e total.

O ritual exige o Puran em jejum e a busca pelo pão. Caminho pela rua vazia, sob o céu lindo. O ambiente me enche de satisfação, apenas por ter a tarefa simples de buscar o pão para o café da manhã. É na trivialidade que a paz se esconde.

Entro na fila pequena da padaria do bairro e me deparo, abruptamente, com a realidade sem cores.

O palco da tensão era a fila. Percebo que um senhor bem-vestido, com roupa de ir à missa, como se dizia antigamente, encontra-se paralisado no meio do caminho, mantendo uma distância exagerada do balcão, esperando, soberano, por sua vez.

Falo bom dia, pergunto-lhe se está na fila, e ele responde apenas balançando a cabeça. Confesso que a irritação me atingiu, não pela demora, mas pelo seu "poder" exagerado de impedir a aproximação dos outros ao balcão. Ele era o dono do espaço, mesmo que o espaço não fosse seu.

Espero mais um pouco e decido que o ritual do pão não merece um conflito filosófico. Digo a ele que passaria à sua frente, porém ciente de sua vez de ser atendido. Fiz isso apenas para não ficar rigidamente parado atrás do poste. Pão comprado na minha vez e problema resolvido.

Saio. Sinto a necessidade de absorver o sol no rosto mais um pouco, pois o dia começou lindo e eu queria prolongar aquele prazer simples antes que a sociedade me cobrasse mais alguma irritação. Outras coisas aconteceram na sequência, é claro, mas prefiro nem relatar.

Isso foi apenas uma gotinha banal. Mas o que incomoda é a persistência dessas gotas. Embora uma gota apenas não transborde um copo, são as gotas cotidianas que nos fazem desejar o isolamento.

A vantagem de estar sozinho é justamente essa: ninguém estraga o seu dia, e ninguém te critica pela sua irritação silenciosa.


28/08/2021

O bem deve estar por perto. Será?


“Sabe, Sancho, todas essas tempestades que acontecem conosco são sinais de que em breve o tempo se acalmará e que coisas boas têm de acontecer; porque não é possível que o bem e o mal durem para sempre, e segue-se que, havendo o mal durado muito tempo, o bem deve estar por perto." D. Quixote de La Mancha.


Comentário: O conceito bem e mal foi inventado pela mente humana, além de ser atemporal. É lógico que a chuva uma hora passa, naturalmente. Sem programação ou intervenção. A natureza é indiferente.







22/02/2020

Aposentadoria dezembro/2019

Chegou, enfim, o meu dia — e ainda me parece incrível acreditar.
Após tantas segundas-feiras, inúmeros desafios, dias de luta e aprendizado, é com nostalgia, mas também com alegria, que anuncio minha aposentadoria.

Com nostalgia, porque o tempo passou veloz demais e, felizmente, encontrei pessoas que me apoiaram, motivaram e colaboraram para o meu crescimento. Com alegria, porque guardo com emoção as parcerias, amizades e histórias que marcaram minha trajetória.

Minha carteira de trabalho foi assinada aos 16 anos, no SENAI, em 1982. Desde então, percorri o caminho até 2019 sem interrupções, sem afastamentos ou advertências, sempre em uma única empresa.

Entrei na Nestlé Barra Mansa-RJ ainda menino, aos 19 anos, em 1985, como terceiro. No ano seguinte, em 1º de dezembro de 1986, fui admitido oficialmente na Nestlé. Hoje, encerro minha carreira profissional, aos quase 54 anos, na DPA.

Despeço-me com a certeza do dever cumprido e com a esperança de que nossos caminhos voltarão a se cruzar — seja na rua, na praia, no mundo virtual ou na estrada da vida. Afinal, o mundo não é tão grande quanto parece. Por isso, não digo adeus, mas apenas até logo.

Meus sinceros agradecimentos a todos que fizeram parte desta jornada.

Dezembro de 2019


09/11/2019

Viúva corporativa

                                     

Richard era um sujeito de pedigree e habitava o planeta Corpo Ration.

Perfeccionista até a medula, anotava cada compromisso e objetivo em uma planilha de Excel. Nada lhe escapava: tudo descrito, conferido, avaliado, com data, prazo de execução, KPI, responsável e, por fim, uma coluna de check-list. Sua planilha era um universo próprio, repleto de tabelas dinâmicas, PROCVs, VBA, dashboards, macros, gráficos coloridos e hiperlinks em profusão.

Tão organizado era Richard que registrava até os centavos gastos com alimentação, combustível e esmolas. Mestre do PowerPoint, sua perfeição terminava aí, pois seu maior talento era bajular as castas superiores. Desgraçado de quem ousasse reclamar de qualquer coisa em Corpo Ration na sua presença: bastava alguém criticar a beterraba servida e Richard disparava sua pérola — “na África há crianças passando fome!” — seguido de uma repreenda automática e ameaça velada.

Richard não tinha vida pessoal. Sua existência era limitada — escrita assim mesmo: Ltda.

O tempo passou e, certo dia, Corpo Ration aboliu as planilhas de Excel, implantando o revolucionário Project ZohoSheet. Richard, incapaz de dominar o novo sistema e inconformado com a extinção do Excel, resistiu até o fim. Resultado: levou um belo pé na bunda e descobriu, da pior forma, que seu controle não era mais necessário.

Saiu pela porta dos fundos, sentindo-se traído, e tornou-se um sujeito de fígado amargo. Como um fidalgo enganado, praguejava sem piedade: contra o padeiro, o lixeiro, até o açougueiro. Transformou-se em inimigo declarado de Corpo Ration, amaldiçoando o planeta diariamente.

Destilava suas dores no Instagram e no Facebook, mas ninguém lhe dava atenção. O tempo seguiu e os habitantes de Corpo Ration migraram para outros planetas que pagavam mais. Richard, porém, não conseguia esquecer aquele ambiente. Falava de Corpo Ration como se ainda estivessem lá as pessoas que o magoaram, sem perceber que o planeta já era outro, povoado por habitantes que sequer sabiam de sua existência.

Richard se transformou numa viúva corporativa — e não sabia.


05/09/2019

Plaquinha com número



Quanto tempo permaneci diante desta tela branca!
No início, sentia a obrigação de escrever e acreditava estar realizando algo importante.
Com o passar dos dias, percebi que tudo não passava de desperdício: ninguém queria saber.

Há um registro no Blog Banal afirmando que eu escrevia por prazer.
Meia verdade.
Sim, havia certo deleite em organizar palavras soltas, mesmo com meus tradicionais erros de português — isso é fato. Mas, lá no íntimo, descobri que minha vaidade ansiava, de alguma forma, por reconhecimento, por um comentário que desse sentido às minhas banalidades.

Como fui ingênuo ao esperar esse tipo de atenção!
Tudo bem. Hoje, essas coisas já não têm importância.
Fui imaturo ao desejar um breve e superficial afago em meu ego.

Agora, mais vivido e com menos necessidades, não quero desperdiçar tempo com minha tosca vaidade.

Não busco reconhecimento, tampouco escrevo por autocomiseração.
Tenho outros interesses e, para evidenciar, percebo que já estamos em setembro e esta é apenas a terceira publicação do ano.

É melhor acostumar-me às eventuais dores da coluna e às inevitáveis despedidas, pois em breve serei apenas uma plaquinha com um número — e nada mais.

E isso será tudo. Ou talvez nada.


05/03/2019

Ajuda de arquibancada

Fulano anuncia para a arquibancada em alto e bom som:

  • Estamos à disposição e se precisar de qualquer ajuda, conte com o "time".

Beltrano se alegra e na primeira dificuldade, solicita colaboração e recebe, longe da arquibancada, a resposta insidiosa:

  • Isso não é comigo, pede ajuda com outro!

Fulano! Esse assunto é seu, de seu conhecimento e você pode ajudar...se quiser... e aproveitando que está longe da arquibancada, responda com sinceridade:

  • Você é incompetente, possui má vontade ou sofre dos dois males?

Não precisa dizer nada. Já sei a resposta!!!

Ah! Se eu pudesse falar o que penso ao invés de escrever de forma cifrada!

Para um bom entendedor, uma linguagem cifrada diz mais do que uma dissertação empolada. #prontofalei. Aqui corre sangue!



23/12/2018

Mais um Natal!

Mais um Natal se aproxima, e aqui estou, diante do Blog Banal, registrando minhas banalidades ao teclado, enquanto ouço o sublime Canon in D, de Pachelbel. Linda demais!

Quando eu era criança, o Natal era celebrado com toda a família reunida na casa de minha querida avó.
Ainda guardo uma fotografia emblemática daquele tempo saudoso: todos em volta da mesa farta de comida e bebida.

O peru assado ao centro, a Coca-Cola na garrafa de um litro, e essa imagem já amarelada confirmam a veracidade da lembrança. Provavelmente foi revelada no Foto Brasil, tradicional loja de Barra Mansa, onde subíamos uma escadaria para deixar o filme e aguardávamos, ansiosos, uma semana inteira até retornar, torcendo para que não houvesse muitas “poses” queimadas. Chamávamos as fotografias de “poses” — e ríamos disso.

Para completar a mesa, havia latas de doce de pêssego em calda e creme de leite Nestlé, que meu avô adorava. O vinho vinha em garrafão de cinco litros, e ninguém reclamava da qualidade.

O tempo passou, e a linha invisível que unia toda a família foi rompida com a morte dos avós. Mas as lembranças permanecem, perenes.

Ah, o tempo! Esse grão invisível de areia que separa, dissolve famílias, relações, vontades — e, por fim, a própria vida.

Aquela mesa jamais será restabelecida, mas deixou sua marca em cada cabecinha que a cercava.
Daquele tempo, restaram apenas a fotografia, as memórias e o meu português imperfeito.

Hoje, continuo celebrando o Natal com minha esposa e dois filhos, e faço questão de manter a tradição da mesa, pois esses momentos se tornam eternos.

Por motivos profissionais, estarei junto da família materna apenas na comemoração de fim de ano.
Tenho certeza de que meus filhos também guardarão essas lembranças, mesmo que a famosa linha invisível do tempo e a distância os separe.

07/12/2018

Mudou o Natal ou mudei eu?


Quando eu era jovem, não perdia essa festa; quase todos aguardavam com ansiedade por esse momento.

Havia três anos que eu não comparecia e, neste ano, resolvi retornar, movido pela expectativa saudosa de reviver os velhos tempos. Ledo engano.

Identifiquei-me na portaria e, a cada degrau avançado, a música se tornava mais intensa.
Segui em direção ao buffet, farto de bolinho de bacalhau, queijos variados, salgados e cerveja gelada à vontade.

No palco, dançarinas e músicos animavam o ambiente. No piso, grupos se formavam conforme afinidades e interesses, enquanto eu não conseguia me encaixar em nenhuma tribo.

Distante e já arrependido de ter ido, permaneci isolado. Embora houvesse alguns conhecidos espalhados pelo salão, preferi ficar comigo mesmo: observando, degustando e bebendo minha cerveja no meu ritmo. Definitivamente, eu não estava bem, nem disposto a me aproximar das pessoas.

Após duas horas, acenei de longe para poucos rostos, levantei-me e fui embora à francesa.

Adaptando Machado de Assis, em certo soneto:
“Mudou a festa ou mudei eu?”