O quarto está escuro. Acordo e ligo o abajur. É domingo de novo e, confesso, eu nem sabia. Abro a janela e a surpresa: a cor azul de um céu limpo e total.
O ritual exige o Puran em jejum e a busca pelo pão. Caminho pela rua vazia, sob o céu lindo. O ambiente me enche de satisfação, apenas por ter a tarefa simples de buscar o pão para o café da manhã. É na trivialidade que a paz se esconde.
Entro na fila pequena da padaria do bairro e me deparo, abruptamente, com a realidade sem cores.
O palco da tensão era a fila. Percebo que um senhor bem-vestido, com roupa de ir à missa, como se dizia antigamente, encontra-se paralisado no meio do caminho, mantendo uma distância exagerada do balcão, esperando, soberano, por sua vez.
Falo bom dia, pergunto-lhe se está na fila, e ele responde apenas balançando a cabeça. Confesso que a irritação me atingiu, não pela demora, mas pelo seu "poder" exagerado de impedir a aproximação dos outros ao balcão. Ele era o dono do espaço, mesmo que o espaço não fosse seu.
Espero mais um pouco e decido que o ritual do pão não merece um conflito filosófico. Digo a ele que passaria à sua frente, porém ciente de sua vez de ser atendido. Fiz isso apenas para não ficar rigidamente parado atrás do poste. Pão comprado na minha vez e problema resolvido.
Saio. Sinto a necessidade de absorver o sol no rosto mais um pouco, pois o dia começou lindo e eu queria prolongar aquele prazer simples antes que a sociedade me cobrasse mais alguma irritação. Outras coisas aconteceram na sequência, é claro, mas prefiro nem relatar.
Isso foi apenas uma gotinha banal. Mas o que incomoda é a persistência dessas gotas. Embora uma gota apenas não transborde um copo, são as gotas cotidianas que nos fazem desejar o isolamento.
A vantagem de estar sozinho é justamente essa: ninguém estraga o seu dia, e ninguém te critica pela sua irritação silenciosa.
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