Hoje completo 38 anos. Muitos dizem que é um dia especial, mas não o considero assim. Para mim, todos os dias possuem a mesma importância — e alguns, nem tanto.
Quando somos jovens, atribuímos um valor excessivo a cada idade alcançada, sobretudo ao dia do aniversário. Naquela época, aguardávamos essa data com grande expectativa. Sentíamo-nos únicos, exclusivos. Era uma fase em que nosso egocentrismo imperava, impedindo-nos de enxergar a realidade sob outra perspectiva. Projetávamos uma vida repleta de realizações. Tudo era possível... O futuro surgia como um palco destinado às melhores histórias, às mais grandiosas óperas, às comédias mais leves. Não havia espaço para a tragédia. O futuro parecia distante, e ai daqueles que ousassem desafiar nossos sonhos... coitados!
Chegávamos a criticar os viajantes mais antigos por não nutrirem os mesmos projetos que a flor da idade provocava em nossas mentes. Revoltávamo-nos com quem pensava diferente. Afinal, como ousavam discordar de mim, o centro do universo? Como dizia Protágoras, o famoso sofista grego: “O homem é a medida de todas as coisas.”
Nada como a viagem contínua do nosso minúsculo grão de areia estelar pela imensidão do universo, percorrendo a elipse do sistema solar, para nos ensinar que nem sempre conseguimos tudo o que planejamos — e para revelar o ridículo papel que representávamos.
Embora ainda espere que me reste um tempo razoável de vida, encontro-me numa fase em que já realizei vários sonhos, enquanto outros se tornaram impossíveis...
Por falar em sonhos, proponho a criação de uma nova palavra: bio-literária. A partir de hoje, 18/05/2004, terça-feira, ela representará o resumo do livro de uma vida anônima, pertencente a um entre seis bilhões de viajantes deste mundo.
Esse resumo equivale à vida de um livro de 500 páginas, das quais 316 já foram escritas — mais da metade. Resta-me escrever a continuidade da história e o último capítulo.
Este livro teve uma encadernação simples, sem letras douradas na capa, mas foi concebido com expectativa e dedicação. Sou parte do primeiro volume de uma coleção de três, encomendados pela modesta família Rodrigues. Meu querido genitor, infelizmente, por obra do somatório de fatores genéticos ou comportamentais, não pôde continuar participando de toda a história. Sua presença se resume ao primeiro capítulo, presente em apenas 116 páginas.
Foi um breve e triste capítulo — ou melhor, uma introdução um pouco mais extensa, porém não menos importante. Seu desfecho deixou marcas profundas por toda a obra, inclusive nos volumes 2 e 3.
Mas, como as páginas precisam ser viradas, este desconhecido descendente sobreviveu e hoje escreve estas linhas, observadas pelos próprios olhos...
O segundo capítulo começa com este personagem, bombardeado pelos hormônios da pós-adolescência, vacilando entre coragem e desânimo, determinação e desistência... entre a certeza e a certeza, pois nessa época julgamos que ninguém possui mais do que nós. Não há espaço para a dúvida. Muitos carregam esse dogmatismo do berço ao túmulo.
Porém, a necessidade de um porto seguro emocional, estável e feliz, sobrepôs-se às aspirações profissionais. O sonho de uma carreira foi interrompido por falta de visão e persistência.
A paixão por uma nova vida, ao lado de uma suave companheira, tornou-se prioridade nas páginas seguintes. Esse sonho se concretizou. A coincidência dos sentimentos, a paixão pelo olhar, pelo toque da pele, pelo perfume, pelo som da voz, pelo carinho, pela harmonia e sintonia, pelo desejo intenso de estar ao lado do outro todos os dias... ah, que época maravilhosa!
Se o livro terminasse aqui, apesar de poucas páginas, já teria o valor de um bom romance.
O capítulo seguinte apresenta o fruto desse encontro. Nasce o primogênito, cercado de expectativas, cuidados e projetos. É a realização de um sonho a dois. São as páginas mais coloridas e rabiscadas deste exemplar. Que capítulo interessante!
As páginas seguem sendo viradas, e a história prossegue... Várias ainda a construir, algumas arrancadas para preservar a reputação do livro. O próximo capítulo está em curso. O último ainda não foi escrito. É desconhecido, mas o futuro é pressuposto.
Este livro envelhecido, com páginas amareladas e corroídas pelo tempo, descansará um dia, silenciosamente, em alguma estante familiar.
Talvez algum descendente manuseie suas páginas e descubra as emoções vividas pelos personagens — se o tempo permitir e a percepção associar. Afinal, a Terra continua sua viagem rumo ao infinito, e novos livros seguem sendo escritos, contando a história da nossa humanidade...
Alex Gil Rodrigues
18/05/2004
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