19/01/2018

Deus é amor!


Imagine um marido que diz à esposa:

— Olha, minha querida, você sabe que eu te amo muito e que lhe dou toda a liberdade para ficar comigo aqui. Você pode ir embora quando quiser, eu não me importo. Você é livre, pode escolher...
Eu te amo demais, mas se você for embora, eu lhe dou um tiro na cabeça!
Mas, nesse caso, a escolha foi sua...

Na minha misericórdia e amor por você, estou humildemente avisando: se permanecer nesta casa, será bem tratada, bem cuidada, nada lhe faltará e eu a amarei, porque o meu amor por você é absoluto!
Mas, se escolher partir... bem, será uma escolha sua. Lembre-se de que estou oferecendo todas as condições para que viva bem comigo...




27/12/2017

Flores Negras


Caminho por becos escuros e pedras molhadas
Rochas lisas e paredes mofadas
Noite fria e silenciosa
Flores negras cravadas nas pedras 
Selva com flores mortas 
Muitos gritos abafados 

Gritos sem necessidade 
Gritos sem desculpas 
Gritos sem piedade
Gritos que machucam

Flores murchas pelo caminho
Flores negras sob a chuva
Flores sem perfume
Flores sem vida
Flores,flores,flores!

Gritos que matam
Gritos que enterram o prazer
Flores negras pisadas no escuro
Flores negras que adornam o túmulo
Silêncio absoluto! 
O grito não é mais ouvido
O grito não mais importa
Nunca mais desrespeitado
Gritos sem ecos
Flores negras sobre a pedra
Ah! como eu gostaria de me encontrar
Antes que eu desapareça.



Esses versos são de autoria de Alex Gil

17/12/2017

Tua força de vontade te salvou


Madrugada de sábado.
Disparo da cama sonolento em direção ao banheiro.
Estico a mão na torneira e aciono a alavanca que libera o jato de água.

Um pequeno inseto negro, semelhante a um besouro, sobe pela louça úmida da pia.
Minha mão, obedecendo a um impulso inexplicável, direciona o fluxo contra ele.
A operação é bem-sucedida. Não comemoro, tampouco me entristeço.
Lavo as mãos de forma automática, fecho a torneira e retorno à cama.

O relógio avança pela noite silenciosa.
De volta ao mesmo ritual, encontro novamente o inseto, insistente, tentando escalar a superfície lisa.
Mais uma vez, a corrente o empurra ao fundo da pia até desaparecer.
Adormeço pela segunda vez.

Ao amanhecer, sigo ao banheiro.
Lá está o inseto, agitando freneticamente as patas, sem sucesso.
Pela primeira vez reflito sobre aquele instante e, do alto de minha “onipotência”, determino:
— Este inseto merece viver.

A mesma mão que tentou eliminá-lo o transporta até um local seguro, à sombra do muro.
— Tua força de vontade te salvou. Mereces viver. Vá em paz.

Alex, 17/12/2017


08/10/2017

Anjos de férias?



Recentemente, conversei com uma pessoa próxima que acredita em anjos. Perguntei por que esses supostos anjos não atuaram na tragédia da creche de Janaúba, quando um funcionário ateou fogo em crianças e em si mesmo, matando oito pequenos, a professora, além dele próprio, e deixando vinte e quatro pessoas internadas.

As respostas, naturalmente, não me convenceram.
Sou uma pessoa cheia de defeitos e limitações, mas certamente arriscaria minha vida para salvar aquelas crianças das chamas. Não suportaria assistir ao sofrimento tendo o poder de evitar e, ainda assim, nada fazer.

Quando um evento termina bem, logo se atribui à ação de forças sobrenaturais, como se tudo estivesse sob “controle”.
Quando termina mal, reina o silêncio, surgem desculpas contraditórias ou a desonestidade intelectual.

Definitivamente, meu cérebro funciona de outra forma.
E confesso: estou com pouca paciência para explicações convenientes.


12/08/2017

Papai, a culpa não é sua!


Papai, ainda estou aqui.

Quanto tempo não te vejo!
Parece que foi ontem o seu último dia.
Jamais esquecerei.

Eu tinha apenas quatorze anos quando você se foi para sempre.
É duro dizer “para sempre”, mas a vida real é assim.
Muitos afirmam que um dia nos encontraremos, mas não alimento essa ilusão.
Às crianças contam que, ao morrer, as pessoas se transformam em estrelas no céu.
Entretanto, aprendi nos livros de ciência que estrelas não são pessoas.

Papai, eu cresci.
Aprendi que devo aceitar a finitude da vida como um processo natural e inevitável.
Quando você nos deixou, eu ainda acreditava em fantasias reconfortantes.
Mas, durante a sua ausência, precisei buscar explicações racionais sobre o mundo.
A literatura e alguns autores me ofereceram respostas mais coerentes às minhas necessidades.
Do céu, recebi apenas silêncio — e disso não reclamo.
A vida é assim, e pronto.

Infelizmente, tenho de aceitar que nunca mais nos encontraremos, por mais fascinante que seja a ideia contrária.
Hoje interpreto a vida de outra forma, mas a culpa não é sua.
Aceito a beleza do jardim sem as fadas, como disse Douglas Adams, e estou bem assim.

Sei que você jamais lerá estas palavras, nem saberá como foi nossa vida depois que partiu.
Mas, se pudesse lhe “dizer” algo, seria para agradecer por tudo.
Você fez muita falta, e ainda sinto saudades.
Uma pena não estar mais aqui, papai.
A culpa não é sua.

Não foi fácil viver sem você, mas sobrevivemos.
Guardo muitas memórias da sua existência e gostaria que estivesse almoçando conosco.
Depois que você se foi, enfrentamos muitas dificuldades, mas hoje estamos bem.
Mamãe ficou viúva com três filhos adolescentes e fez de tudo para nos criar com dignidade, honestidade e poucos recursos.

Na época, com quatorze anos, eu não me conformava com sua partida.
Pensava que a vida era controlada por um Deus.
Com o tempo, descobri que não há ninguém no controle, que os eventos não são programados e que, portanto, a culpa não é de ninguém.
Eu sou pai, e jamais deixaria três crianças em dificuldades sem o seu pai.
De todas as carências, a sua presença foi a maior.

Hoje sei que a natureza é cega, indiferente e implacável às nossas necessidades.
Os humanos criam fantasias e outros mundos para suportar melhor a vida e não aceitar a finitude.
Sei também que a natureza não é justa nem injusta: somos nós que criamos conceitos, classificamos e rotulamos.
O roteiro da vida não é escrito por ninguém; a história de cada um resulta de eventos e escolhas ao longo da existência.
Não temos controle sobre grande parte da vida e tentamos sobreviver fazendo o melhor que podemos — nem sempre —, trabalhando incessantemente em busca de uma vida satisfatória.

Papai, dizem que nada acontece por acaso.
Eu não acredito nisso.
Muita coisa acontece por acaso, todos os dias.
Inclusive mortes prematuras como a sua.
Como já disse, a natureza não tem culpa.
Todos somos vítimas.
A culpa não foi sua.
Aliás, a culpa não é de ninguém.
A morte faz parte do processo da vida.

Lembro que você nunca me deu um tapa, mas a vida, com o tempo, me deu alguns — e isso também faz parte do aprendizado.

Preciso encerrar este texto, antes que pensem que não estou bem de saúde mental, escrevendo para um pai que já não existe.

Mas isso não importa.
Por alguns instantes, pude me lembrar de você e sentir gratidão por ter existido, por ter me dado amor e sua carga genética.
Ainda sinto muito a sua falta, mesmo depois de tanto tempo.
Teria tantas coisas para conversar, mas nossa história foi interrompida e nunca conseguiremos colocar os assuntos em dia.

Sinto muito, papai.
Mas a culpa não é sua.

Beijos imaginários de seu primogênito,
Alex

  
Papai e mamãe
Visita à Aparecida-SP
Papai adolescente



Casamento de papai e mamãe



No Jardim das Preguiças
Papai rapaz

Ele gostava de carnaval
Papai com 26 anos

Foto rara dele sorrindo






06/08/2017

Ferro velho, eu voltei!


Fazia muito tempo que eu não entrava em um ferro-velho, mas a vida dá voltas e, por necessidade, acabamos voltando a esses lugares.

Hoje quero registrar uma história recente — talvez ninguém se interesse, mas ainda assim gosto de escrever.

Meu filho teve o carro furtado enquanto trabalhava. Felizmente conseguimos recuperá-lo, abandonado na vizinha Limeira, interior de São Paulo. Isso só foi possível porque o motor quebrou durante a fuga do ladrão.

O carro é um Volkswagen Gol antigo, e precisei procurar um bloco em ferro-velho, já que comprar um novo seria inviável.

O ambiente continua o mesmo de três décadas atrás, quando eu buscava peças para meu velho fusquinha: nenhuma evolução, nenhuma organização. Peças espalhadas e amontoadas por todos os cantos — no piso, nas paredes, no balcão, onde quer que o olhar alcançasse.

Cumprimentei o sujeito do balcão e perguntei se havia um bloco de motor para Gol 1.0. Do alto de sua preguiça, sentado num banco de madeira, apenas levantou o braço e apontou para os fundos da pocilga.

Fui sozinho até o local indicado. Como era de se esperar, não consegui identificar nada no meio daquela bagunça. Esperava, ao menos, que ele me acompanhasse.

Depois de alguns minutos procurando às cegas, desisti. Ao sair, o sujeito reapareceu e perguntou:

— O bloco que você procura é para qual Gol?

— Para um Gol 1.0, 16 válvulas — respondi.

— Mas você não sabe se é Gol Bola, Geração 2, 3, 4, 5...?

— Não, eu não sei — respondi naturalmente.

— MAS VOCÊ NÃO CONHECE CARRO? — gritou, surpreso com minha ignorância.

Respirei fundo e me arrependi de ter entrado. Para ele, não conhecer as gerações do Gol era prova de idiotice.

E não parou por aí.

— Está vendo aquele carro ali? É um Gol Bola — ensinou o rei da sucata.

Seguiu transmitindo seu “valioso” conhecimento sobre modelos de carros, apontando veículos e explicando como se fosse um professor. Até que indicou um carro na calçada.

— Esse eu conheço bem — respondi irritado. — Afinal, é o meu. E perguntei se ele realmente me achava idiota por não saber diferenciar os tipos de Gol.

A conversa tornou-se insustentável. Fui embora com o “conhecimento” inútil adquirido, torcendo para que passem mais trinta anos antes de eu precisar entrar novamente em um ferro-velho.

Antes de terminar, registro uma reflexão: não tenho os talentos que gostaria, mas consigo fazer algumas coisas satisfatórias. Gostaria de ter outros dons, mas talento não depende de desejo.

Há quem escreva com maestria. Outros encantam ao tocar instrumentos. Alguns falam inglês com fluência invejável. Há quem pinte quadros ou esculpa obras extraordinárias. Outros possuem memória prodigiosa. Esses são talentos que eu gostaria de ter — muito mais do que saber as gerações de motores de Gol, conhecimento que nada acrescenta à minha vida.

Por hoje é isso.



21/07/2017

Quem é Deus segundo Ludwig Feuerbach



Recentemente conheci um autor chamado Ludwig Feuerbach, nascido em 1804 e falecido em 1872 com umas ideias bem interessantes. 

A sua obra defende, entre outras coisas, que Deus é uma criação humana e que foi o ser humano que criou Deus, ou seja que Deus foi criado pelo homem à imagem e semelhança da própria personalidade humana! 

Interessante esse ponto de vista. Acho que poucos pensaram dessa forma. Segundo ele, a criação de Deus foi bem simples. O homem pegou a sua própria personalidade, retirou todos os vícios, deixou apenas as virtudes e idealizou essa mesma personalidade humana destituída de defeitos e dotada apenas de virtudes como pertencendo a um ser eterno divino chamado Deus. 

Para criar o Diabo, o ser humano pegou exatamente aquelas características negativas de sua própria personalidade, removeu todas as características positivas e considerou apenas os defeitos de sua própria personalidade! 

Assim sendo, o Diabo seria a representação, digamos assim, substantivada dos próprios defeitos da personalidade humana e quanto que Deus seria a substantivação de todas as características positivas da própria personalidade humana!


02/07/2017

Schopenhauer sendo Schopenhauer



É realmente inacreditável como a vida da maioria dos homens flui de maneira insignificante e fútil, quando vista externamente, e quão apática e sem sentido pode parecer interiormente. As quatro idades da vida que levam à morte são feitas de ânsia e martírio extenuados, além de uma vertigem ilusória, acompanhada por uma série de pensamentos triviais. Assemelham-se ao mecanismo de um relógio, que é colocado em movimento e gira, sem saber por quê. E toda a vez que um homem é gerado e nasce, dá-se novamente corda ao relógio da vida humana, para então repetir a mesma cantilena pela enésima vez, frase por frase, compasso por compasso, com variações insignificantes.


Arthur Schopenhauer


18/06/2017

Conhecendo a Biblioteca de Araras-SP


Depois de algum tempo morando na cidade de Araras, tive a curiosidade de conhecer as várias salas da Biblioteca Municipal Martinico Prado.

O espaço é limpo e bem organizado. Para testar a disponibilidade de livros, perguntei à bibliotecária se havia obras de Nietzsche. Após consultar o sistema, informou que existiam apenas três: uma biografia, Nietzsche para estressados e Quando Nietzsche chorou. Nenhuma obra escrita pelo “filósofo do martelo”. Sem problemas — isso não diminui a importância do local.

Ainda bem que possuo muitos livros em casa, e talvez esse seja um dos motivos de ter demorado tanto para conhecer a biblioteca da cidade. Antes de me despedir, agradeci e perguntei se poderia tirar uma fotografia do ambiente, apenas como lembrança. A resposta foi lacônica: não.

Surpreso, questionei a razão da negativa. Ela explicou que havia muita gente “má intencionada” e, por isso, não era permitido. Argumentei que não via motivo para tal proibição, já que o espaço estava bem apresentado. Se fosse um museu, onde o flash pudesse danificar obras, até entenderia. Mas não era o caso. Reforcei que minha intenção era positiva, mas, firme, ela disse que eu precisaria de autorização especial da prefeitura para registrar imagens daquele ambiente público. É claro que desisti da fotografia.

Fiquei pensando: será que também precisarei de autorização para fotografar o Lago Municipal, o Parque Ecológico ou o caça Mirage em frente ao Ginásio Municipal? Estranho, não?

A história pode ser irrelevante, mas achei importante deixá-la registrada aqui no Blog Banal, como lembrança dos conceitos desta época.



10/06/2017

Sobre o paraíso

Imagine que você acorda sonolento, abre os olhos e percebe estar em um lugar paradisíaco.

A temperatura é agradável, a visão deslumbrante, e uma sensação de bem-estar nunca antes sentida envolve o corpo.

Ao olhar em volta, nota a presença de outras pessoas, mas nenhum rosto familiar.
Mais adiante, grupos conversam animadamente, transbordando alegria e amizade.

Diante da solidão, você decide caminhar entre os jardins floridos, na esperança de encontrar algum parente ou amigo naquela manhã tão agradável.
Depois de muito procurar, percebe que não há ninguém conhecido naquele cenário deslumbrante.
É como estar em uma festa cercado de estranhos.

Apesar da beleza do lugar, nasce a necessidade de reencontrar aqueles que tornaram sua existência mais suportável, de compartilhar com eles tais sensações.
Mas, enfim, descobre que seus filhos, parentes e amigos não estão ali.
Ao contrário, encontram-se em um espaço terrível, marcado por calor insuportável e dor incessante — todos os dias, para sempre.

Nesse momento, alguém se aproxima para consolar:
— Não se preocupe com os seus. Você salvou a sua vida, e isso é o mais importante.
— Seja feliz eternamente. Seus filhos e amigos tiveram a mesma chance que você. Agora recebem o castigo que merecem. A culpa não é sua. Sorria: você conquistou o maior prêmio, a vida eterna.


03/06/2017

O problema é a vida?


Primeiro, pensei que o problema fosse a segunda-feira.
Depois, desconfiei que fosse o mês de maio.
Hoje percebo: o problema talvez seja a própria vida.