12/08/2017

Papai, a culpa não é sua!


Papai, ainda estou aqui.

Quanto tempo não te vejo!
Parece que foi ontem o seu último dia.
Jamais esquecerei.

Eu tinha apenas quatorze anos quando você se foi para sempre.
É duro dizer “para sempre”, mas a vida real é assim.
Muitos afirmam que um dia nos encontraremos, mas não alimento essa ilusão.
Às crianças contam que, ao morrer, as pessoas se transformam em estrelas no céu.
Entretanto, aprendi nos livros de ciência que estrelas não são pessoas.

Papai, eu cresci.
Aprendi que devo aceitar a finitude da vida como um processo natural e inevitável.
Quando você nos deixou, eu ainda acreditava em fantasias reconfortantes.
Mas, durante a sua ausência, precisei buscar explicações racionais sobre o mundo.
A literatura e alguns autores me ofereceram respostas mais coerentes às minhas necessidades.
Do céu, recebi apenas silêncio — e disso não reclamo.
A vida é assim, e pronto.

Infelizmente, tenho de aceitar que nunca mais nos encontraremos, por mais fascinante que seja a ideia contrária.
Hoje interpreto a vida de outra forma, mas a culpa não é sua.
Aceito a beleza do jardim sem as fadas, como disse Douglas Adams, e estou bem assim.

Sei que você jamais lerá estas palavras, nem saberá como foi nossa vida depois que partiu.
Mas, se pudesse lhe “dizer” algo, seria para agradecer por tudo.
Você fez muita falta, e ainda sinto saudades.
Uma pena não estar mais aqui, papai.
A culpa não é sua.

Não foi fácil viver sem você, mas sobrevivemos.
Guardo muitas memórias da sua existência e gostaria que estivesse almoçando conosco.
Depois que você se foi, enfrentamos muitas dificuldades, mas hoje estamos bem.
Mamãe ficou viúva com três filhos adolescentes e fez de tudo para nos criar com dignidade, honestidade e poucos recursos.

Na época, com quatorze anos, eu não me conformava com sua partida.
Pensava que a vida era controlada por um Deus.
Com o tempo, descobri que não há ninguém no controle, que os eventos não são programados e que, portanto, a culpa não é de ninguém.
Eu sou pai, e jamais deixaria três crianças em dificuldades sem o seu pai.
De todas as carências, a sua presença foi a maior.

Hoje sei que a natureza é cega, indiferente e implacável às nossas necessidades.
Os humanos criam fantasias e outros mundos para suportar melhor a vida e não aceitar a finitude.
Sei também que a natureza não é justa nem injusta: somos nós que criamos conceitos, classificamos e rotulamos.
O roteiro da vida não é escrito por ninguém; a história de cada um resulta de eventos e escolhas ao longo da existência.
Não temos controle sobre grande parte da vida e tentamos sobreviver fazendo o melhor que podemos — nem sempre —, trabalhando incessantemente em busca de uma vida satisfatória.

Papai, dizem que nada acontece por acaso.
Eu não acredito nisso.
Muita coisa acontece por acaso, todos os dias.
Inclusive mortes prematuras como a sua.
Como já disse, a natureza não tem culpa.
Todos somos vítimas.
A culpa não foi sua.
Aliás, a culpa não é de ninguém.
A morte faz parte do processo da vida.

Lembro que você nunca me deu um tapa, mas a vida, com o tempo, me deu alguns — e isso também faz parte do aprendizado.

Preciso encerrar este texto, antes que pensem que não estou bem de saúde mental, escrevendo para um pai que já não existe.

Mas isso não importa.
Por alguns instantes, pude me lembrar de você e sentir gratidão por ter existido, por ter me dado amor e sua carga genética.
Ainda sinto muito a sua falta, mesmo depois de tanto tempo.
Teria tantas coisas para conversar, mas nossa história foi interrompida e nunca conseguiremos colocar os assuntos em dia.

Sinto muito, papai.
Mas a culpa não é sua.

Beijos imaginários de seu primogênito,
Alex

  
Papai e mamãe
Visita à Aparecida-SP
Papai adolescente



Casamento de papai e mamãe



No Jardim das Preguiças
Papai rapaz

Ele gostava de carnaval
Papai com 26 anos

Foto rara dele sorrindo






06/08/2017

Ferro velho, eu voltei!


Fazia muito tempo que eu não entrava em um ferro-velho, mas a vida dá voltas e, por necessidade, acabamos voltando a esses lugares.

Hoje quero registrar uma história recente — talvez ninguém se interesse, mas ainda assim gosto de escrever.

Meu filho teve o carro furtado enquanto trabalhava. Felizmente conseguimos recuperá-lo, abandonado na vizinha Limeira, interior de São Paulo. Isso só foi possível porque o motor quebrou durante a fuga do ladrão.

O carro é um Volkswagen Gol antigo, e precisei procurar um bloco em ferro-velho, já que comprar um novo seria inviável.

O ambiente continua o mesmo de três décadas atrás, quando eu buscava peças para meu velho fusquinha: nenhuma evolução, nenhuma organização. Peças espalhadas e amontoadas por todos os cantos — no piso, nas paredes, no balcão, onde quer que o olhar alcançasse.

Cumprimentei o sujeito do balcão e perguntei se havia um bloco de motor para Gol 1.0. Do alto de sua preguiça, sentado num banco de madeira, apenas levantou o braço e apontou para os fundos da pocilga.

Fui sozinho até o local indicado. Como era de se esperar, não consegui identificar nada no meio daquela bagunça. Esperava, ao menos, que ele me acompanhasse.

Depois de alguns minutos procurando às cegas, desisti. Ao sair, o sujeito reapareceu e perguntou:

— O bloco que você procura é para qual Gol?

— Para um Gol 1.0, 16 válvulas — respondi.

— Mas você não sabe se é Gol Bola, Geração 2, 3, 4, 5...?

— Não, eu não sei — respondi naturalmente.

— MAS VOCÊ NÃO CONHECE CARRO? — gritou, surpreso com minha ignorância.

Respirei fundo e me arrependi de ter entrado. Para ele, não conhecer as gerações do Gol era prova de idiotice.

E não parou por aí.

— Está vendo aquele carro ali? É um Gol Bola — ensinou o rei da sucata.

Seguiu transmitindo seu “valioso” conhecimento sobre modelos de carros, apontando veículos e explicando como se fosse um professor. Até que indicou um carro na calçada.

— Esse eu conheço bem — respondi irritado. — Afinal, é o meu. E perguntei se ele realmente me achava idiota por não saber diferenciar os tipos de Gol.

A conversa tornou-se insustentável. Fui embora com o “conhecimento” inútil adquirido, torcendo para que passem mais trinta anos antes de eu precisar entrar novamente em um ferro-velho.

Antes de terminar, registro uma reflexão: não tenho os talentos que gostaria, mas consigo fazer algumas coisas satisfatórias. Gostaria de ter outros dons, mas talento não depende de desejo.

Há quem escreva com maestria. Outros encantam ao tocar instrumentos. Alguns falam inglês com fluência invejável. Há quem pinte quadros ou esculpa obras extraordinárias. Outros possuem memória prodigiosa. Esses são talentos que eu gostaria de ter — muito mais do que saber as gerações de motores de Gol, conhecimento que nada acrescenta à minha vida.

Por hoje é isso.