Sem carro, precisei comprar batatas num mercadinho de bairro. Esses lugares têm suas vantagens: oferecem quase tudo para emergências domésticas — cola para PVC, torneira, carrapeta, filtro de barro, moringa, carne, pão, vinho de qualidade duvidosa e, claro, batatas. Muitas batatas.
Na fila, imóvel como um saco de batatas, ouvi a conversa de duas senhorinhas. Não foi bisbilhotice: estava ali, aguardando, com boa audição e um Blog Banal pronto para registrar qualquer bobagem.
— Oi, fulana, quanto tempo!
— Pois é, faz muito tempo mesmo!
— Eu fico o dia inteiro em casa e só saio para vir ao mercado.
— Eu também. Cuido dos meus netos para minha filha trabalhar.
— Onde você mora?
— Perto da borracharia. E você?
— Na mesma casa há trinta anos, perto da escola.
— E a família?
— Moro sozinha. Não tenho filhos. Meu marido morreu há sete meses...
Os olhos se encheram de lágrimas. A amiga a consolou com palavras que todos dizem:
— Não fique assim, ele com certeza está melhor do que a gente.
— É que ele foi meu primeiro e único namorado. Sinto muito a falta dele. Minha vida ficou triste e vazia.
— Fique tranquila, meu bem. Deus sabe todas as coisas.
Quando comecei a refletir sobre essa frase, a atendente atrás da balança interrompeu:
— Próximo!
Peguei meu saco de batatas, pesei, paguei e segui. Salvo pelas batatas.


