26/01/2017

Saco cheio de... batatas!


Sem carro, precisei comprar batatas num mercadinho de bairro. Esses lugares têm suas vantagens: oferecem quase tudo para emergências domésticas — cola para PVC, torneira, carrapeta, filtro de barro, moringa, carne, pão, vinho de qualidade duvidosa e, claro, batatas. Muitas batatas.

Na fila, imóvel como um saco de batatas, ouvi a conversa de duas senhorinhas. Não foi bisbilhotice: estava ali, aguardando, com boa audição e um Blog Banal pronto para registrar qualquer bobagem.

— Oi, fulana, quanto tempo!
— Pois é, faz muito tempo mesmo!
— Eu fico o dia inteiro em casa e só saio para vir ao mercado.
— Eu também. Cuido dos meus netos para minha filha trabalhar.
— Onde você mora?
— Perto da borracharia. E você?
— Na mesma casa há trinta anos, perto da escola.
— E a família?
— Moro sozinha. Não tenho filhos. Meu marido morreu há sete meses...

Os olhos se encheram de lágrimas. A amiga a consolou com palavras que todos dizem:

— Não fique assim, ele com certeza está melhor do que a gente.
— É que ele foi meu primeiro e único namorado. Sinto muito a falta dele. Minha vida ficou triste e vazia.
— Fique tranquila, meu bem. Deus sabe todas as coisas.

Quando comecei a refletir sobre essa frase, a atendente atrás da balança interrompeu:

— Próximo!

Peguei meu saco de batatas, pesei, paguei e segui. Salvo pelas batatas.

22/01/2017

Eletrocardiograma de cadáver


Deitado numa maca fria, olho para o alto enquanto vários eletrodos se fixam ao meu peito.
Minutos antes, uma assistente — enfermeira ou sei lá o quê — não perguntou meu nome.
Barbeou meu tórax nu como quem maneja uma enxada.
Espirrou gel como se fosse catchup.
Levantou meu braço com rispidez, como se fosse o membro de um cadáver.

Seu rosto era grave, a voz mecânica me orientava subir à maca como um cão adestrado.
Definitivamente, delicadeza não era o forte daquela mulher.

E pensar que tudo isso foi pelo convênio médico.

A “autópsia” chegou ao fim.
Estou bem.

01/01/2017

Ano novo, vida nova?



Por que insistimos em fazer parte de algo que não nos cabe, não nos agrada, e não temos coragem de romper?
Por que aceitamos histórias que já não nos servem?
Quantas vezes seguimos adiante quando a melhor decisão seria parar e se distanciar?

Relacionamentos que não agregam devem ser rompidos. Não falo apenas dos amorosos, mas também dos de fachada e das redes sociais.

Se evitamos até um tênis que aperta, por que não fazemos o mesmo com os vínculos que nos sufocam?

Definitivamente, aquilo que não é recíproco não vale a pena. Para que se diminuir ou engolir sapos para ser aceito em grupos onde você não tem valor, ou sequer existe? A troco de quê? Quem não é capaz de te aceitar como você é, não merece a sua presença.

Dizem que as pessoas desprezam aquilo que não podem ter ou não podem ser. Pois bem: para que permanecer numa rede virtual se, no mundo real, você evita o contato e apenas acena de longe?

Já que iniciamos um novo ano, convido você — e a mim mesmo — a começar essa fase sem sabotagem, sem busca por aceitação vazia, sem troca de likes por indiferença.

Se você não suporta alguém, exclua-o da sua vida. Fique mais leve.
E que isso valha para mim também.