Caro leitor, hoje compartilho uma história particular, ligada a uma fotografia em preto-e-branco que guarda um significado especial em minha vida.
Quando menino, eu passava pela calçada da fábrica retratada na imagem. Parava no portão e ficava olhando para dentro, exatamente na área onde aparece o caminhão. O cavalo, claro, não é da minha época.
Com as mãos apoiadas no portão, admirava as pessoas de uniforme branco, botas e quepe na cabeça, como soldados. Pensava: “Quando crescer, vou trabalhar nessa fábrica.”
Ali, onde o caminhão está encostado, ficava a Recepção de Leite, com seu teto em abóboda — invenção mesopotâmica difundida pelos romanos. Em frente ao cavalo, a janela do Laboratório. Logo atrás, as duas chaminés das Caldeiras: uma de tijolo, outra de metal. E, no alto do morro, o tratamento de água da cidade.
Aos 19 anos, realizei o sonho: comecei a trabalhar ali em 1º de dezembro de 1986. Foram anos de felicidade e aprendizado.
Mas em 2009 veio a missão mais difícil: ser o último colaborador da fábrica, que teria suas atividades transferidas para outro estado.
Não foi fácil apagar a luz do Escritório Técnico e perceber que não havia mais ninguém para me despedir. Os colegas partiram aos poucos, até que fiquei só, ocupando uma sala silenciosa. Andava pelos corredores e o silêncio gritava nos meus ouvidos.
O último dia foi o mais duro da minha vida profissional. Às 17h30, desci os dois lances de escada, caminhei pelo corredor e parei na portaria — no mesmo portão onde, menino, sonhara trabalhar. Dei a última olhada.
Senti um nó na garganta e parti, deixando para trás a segunda fábrica da Nestlé no Brasil: minha primeira escola profissional, minha segunda casa, meus sonhos, amigos e 24 anos de história.
O tempo passou. As lágrimas secaram. O sol voltou a brilhar.
Hoje, aos 50 anos, registro com orgulho que nesta data, 1º de dezembro de 2016, completei 30 anos de trabalho na mesma fábrica — um feito raro nos dias atuais, em Araras-SP.
Entrei solteiro, casei, tive filhos, e tudo isso aconteceu enquanto construía minha vida profissional nesse lugar que se tornou minha segunda família.
Alguns podem achar estranho permanecer tanto tempo na mesma empresa, em tempos de ansiedade e insatisfação constantes. Mas digo com convicção: não foi um fardo. Foi uma jornada recompensadora. Aprendi que a chave para uma vida profissional ética e satisfatória está em cultivar boa vontade, humildade, honestidade, respeito e o desejo de aprender todos os dias. Agindo assim, as dificuldades se tornam aprendizado, e o tempo nos devolve orgulho e fortalecimento.
O prazer de trabalhar não está atrás dos muros ou portões de qualquer empresa. Ele nasce dentro de nós, na energia que nos move e na satisfação de realizar um trabalho bem feito. Quem não percebe isso, infelizmente, não encontrará em lugar nenhum, por mais que procure.
Agradeço aos poucos "amigos" de Araras que me receberam e pela oportunidade de compartilhar tantos anos de convivência e aprendizado.


