Vera colocou a caneca e o pão sobre a mesa. O café estava quente, mas Tarso apenas olhava para o vapor subindo.
— Você precisa comer — disse Vera.
— Não sinto fome.
— É apenas o desjejum, Tarso. O dia começou.
Tarso desviou o olhar da caneca para a janela. O céu estava azul, mas para ele, era apenas uma fresta de luz sem importância.
— Eu acordei morto, Vera.
Ela parou com a mão na alça do bule. Olhou para ele, procurando um sinal de ironia. Não encontrou.
— Você está respirando — ela disse. — O seu coração está batendo. Eu consigo ouvir daqui.
— Isso é a biologia. É o sentido literal. Disso eu sei.
— E o que mais existe?
— As cores — ele respondeu baixo. — O ímpeto. A urgência de chegar a algum lugar. Hoje, eu não tenho nada disso. Acordei sem pressa, porque não há para onde ir quando se está assim.
Vera sentou-se à frente dele.
— É uma sensação. Ela passa.
— Não é uma sensação — disse Tarso, e sua voz era seca como papel velho. — É a única verdade possível para hoje.