04/01/2026

O Café

Vera colocou a caneca e o pão sobre a mesa. O café estava quente, mas Tarso apenas olhava para o vapor subindo.

— Você precisa comer — disse Vera.

— Não sinto fome.

— É apenas o desjejum, Tarso. O dia começou.

Tarso desviou o olhar da caneca para a janela. O céu estava azul, mas para ele, era apenas uma fresta de luz sem importância.

— Eu acordei morto, Vera.

Ela parou com a mão na alça do bule. Olhou para ele, procurando um sinal de ironia. Não encontrou.

— Você está respirando — ela disse. — O seu coração está batendo. Eu consigo ouvir daqui.

— Isso é a biologia. É o sentido literal. Disso eu sei.

— E o que mais existe?

— As cores — ele respondeu baixo. — O ímpeto. A urgência de chegar a algum lugar. Hoje, eu não tenho nada disso. Acordei sem pressa, porque não há para onde ir quando se está assim.

Vera sentou-se à frente dele.

— É uma sensação. Ela passa.

— Não é uma sensação — disse Tarso, e sua voz era seca como papel velho. — É a única verdade possível para hoje.