07/03/2017

O prazer do disco de vinil






A agulha do toca-discos repousa suave e desliza pelos sulcos macios do vinil,
como dois corpos em movimentos contínuos, delicados e circulares.
O ar se enche de prazer, inundado por uma música lasciva e revigorante,
enquanto os olhos se fecham lentamente, entregues ao êxtase sonoro.

Alex




05/03/2017

Rede Social - Nova fase


Hoje, 05/03/2017, é um dia importante. Aliás, todos os dias deveriam ser importantes, porque a vida é breve.

Inicio uma nova fase em minha rede social. Houve um tempo em que eu queria ter muitos amigos: aceitava convites de qualquer pessoa que respirasse o mesmo ar ou tivesse algum interesse em comum. Achava que isso era bom, mesmo que a pessoa fosse apenas uma sombra ou um espectador silencioso.

Agora, minha filosofia é simplificar e intensificar tudo que realmente agrega e vale a pena. O número de “amigos” ainda pode aumentar, porque me arrependi de ter excluído algumas pessoas. Talvez nem tenham notado, ou talvez eu tenha lhes prestado um favor, já que não sou tão simpático e costumo expor pensamentos que incomodam.

Hoje estou com menos de 100 contatos (já tive quase 300). Se você está lendo, é porque faz parte dessa nova fase, e acredito que sua presença é importante. Peço desculpas a quem excluí injustamente — não sou perfeito. Ninguém é. Perfeição, aliás, é um ideal inventado para fugir do mundo real.

Por favor, não compartilhem esta publicação. Seria constrangedor encontrá-los na fila do pão.




11/02/2017

Barra Mansa e o trem





Após ouvir a reclamação de um amigo de Barra Mansa sobre os trens que paralisam a cidade todos os dias, imediatamente um filme passou pela minha cabeça.

Barra Mansa, cidade querida, minha história, família e amigos.

É triste perceber que, na política local, as promessas apenas se revezam enquanto o tempo corre. Cresci vendo o trem parado, acidentes, gente perdendo a perna, carros arrastados. Vi maquetes grandiosas, vídeos de projetos para o pátio de manobras, candidatos dizendo “Mudar para ser feliz” ou “Por uma Barra Mansa bonita e melhor”. E o tempo foi passando.

Chega um momento em que só os mais jovens ainda acreditam, porque não conhecem a história e não se cansaram. O enredo é sempre o mesmo: surge o candidato novo com soluções para tudo, criticando o anterior. O povo acredita e elege. O novo começa dizendo que tudo está errado — e com razão. Forma sua turma de confiança, distribui cargos, pede paciência e esperança.

As obras não acontecem. O novo diz que não há recursos, pede mais apoio. O relógio não para. A culpa é do anterior. A próxima eleição se aproxima. Enquanto isso, pintam os arcos da ponte, o meio-fio, fazem operação tapa-buraco, prometem empregos na Flumisul, organizam carnaval e festinhas. Até a próxima eleição, pedindo mais quatro anos ou oferecendo outro candidato com as mesmas promessas.

Pessimista, eu? Não. Apenas já assisti esse filme muitas vezes e acabei decorando.
Desculpe contar o final.


26/01/2017

Saco cheio de... batatas!


Sem carro, precisei comprar batatas num mercadinho de bairro. Esses lugares têm suas vantagens: oferecem quase tudo para emergências domésticas — cola para PVC, torneira, carrapeta, filtro de barro, moringa, carne, pão, vinho de qualidade duvidosa e, claro, batatas. Muitas batatas.

Na fila, imóvel como um saco de batatas, ouvi a conversa de duas senhorinhas. Não foi bisbilhotice: estava ali, aguardando, com boa audição e um Blog Banal pronto para registrar qualquer bobagem.

— Oi, fulana, quanto tempo!
— Pois é, faz muito tempo mesmo!
— Eu fico o dia inteiro em casa e só saio para vir ao mercado.
— Eu também. Cuido dos meus netos para minha filha trabalhar.
— Onde você mora?
— Perto da borracharia. E você?
— Na mesma casa há trinta anos, perto da escola.
— E a família?
— Moro sozinha. Não tenho filhos. Meu marido morreu há sete meses...

Os olhos se encheram de lágrimas. A amiga a consolou com palavras que todos dizem:

— Não fique assim, ele com certeza está melhor do que a gente.
— É que ele foi meu primeiro e único namorado. Sinto muito a falta dele. Minha vida ficou triste e vazia.
— Fique tranquila, meu bem. Deus sabe todas as coisas.

Quando comecei a refletir sobre essa frase, a atendente atrás da balança interrompeu:

— Próximo!

Peguei meu saco de batatas, pesei, paguei e segui. Salvo pelas batatas.

22/01/2017

Eletrocardiograma de cadáver


Deitado numa maca fria, olho para o alto enquanto vários eletrodos se fixam ao meu peito.
Minutos antes, uma assistente — enfermeira ou sei lá o quê — não perguntou meu nome.
Barbeou meu tórax nu como quem maneja uma enxada.
Espirrou gel como se fosse catchup.
Levantou meu braço com rispidez, como se fosse o membro de um cadáver.

Seu rosto era grave, a voz mecânica me orientava subir à maca como um cão adestrado.
Definitivamente, delicadeza não era o forte daquela mulher.

E pensar que tudo isso foi pelo convênio médico.

A “autópsia” chegou ao fim.
Estou bem.

01/01/2017

Ano novo, vida nova?



Por que insistimos em fazer parte de algo que não nos cabe, não nos agrada, e não temos coragem de romper?
Por que aceitamos histórias que já não nos servem?
Quantas vezes seguimos adiante quando a melhor decisão seria parar e se distanciar?

Relacionamentos que não agregam devem ser rompidos. Não falo apenas dos amorosos, mas também dos de fachada e das redes sociais.

Se evitamos até um tênis que aperta, por que não fazemos o mesmo com os vínculos que nos sufocam?

Definitivamente, aquilo que não é recíproco não vale a pena. Para que se diminuir ou engolir sapos para ser aceito em grupos onde você não tem valor, ou sequer existe? A troco de quê? Quem não é capaz de te aceitar como você é, não merece a sua presença.

Dizem que as pessoas desprezam aquilo que não podem ter ou não podem ser. Pois bem: para que permanecer numa rede virtual se, no mundo real, você evita o contato e apenas acena de longe?

Já que iniciamos um novo ano, convido você — e a mim mesmo — a começar essa fase sem sabotagem, sem busca por aceitação vazia, sem troca de likes por indiferença.

Se você não suporta alguém, exclua-o da sua vida. Fique mais leve.
E que isso valha para mim também.

31/12/2016

Que o ano 2017 seja mais leve!



Chegamos ao último dia de 2016 e, mais uma vez, renovamos os desejos para uma nova fase.
Há quem diga que este momento é irrelevante, porque a vida será a mesma na segunda-feira. Talvez. Mas um pouco de esperança nunca fez mal a ninguém — é alimento para a saúde mental.

Li recentemente sobre uma tradição em algumas cidades da Itália: quando os sinos soam à meia-noite, o povo atira pelas janelas panelas velhas e vasos rachados, para simbolicamente se livrar do que não serve mais.
Um contato em Veneza confirmou a história e acrescentou: é preciso cuidado ao andar pelas ruas, porque não jogam apenas panelas e vasos, mas qualquer coisa quebrada e inútil.

Fica aqui a inspiração: não precisamos jogar objetos pela janela, mas podemos nos libertar daquilo que nos aprisiona e torna a vida menos satisfatória. Todos temos nossas panelas velhas e vasos rachados na mente. Este dia pode ser a oportunidade de descartar esse lixo, ou ao menos planejar o descarte.

Para finalizar, adapto uma frase que os romanos inscreviam nos túmulos: Sit tibi terra levis.
Que o ano de 2017 seja mais leve!


19/12/2016

A morte da consciência




Não há razão para acreditar que nossa consciência — alma, espírito, ou qualquer nome que se lhe dê — continue após a morte.
Tudo indica que ela depende do funcionamento do cérebro.
E, quando o cérebro se apaga, a vida mental também se encerra.
Simples assim.

O resto é sonho.
É inconformismo diante da própria extinção.



30/11/2016

Cheguei aos 30 anos de trabalho na mesma empresa!



Caro leitor, hoje compartilho uma história particular, ligada a uma fotografia em preto-e-branco que guarda um significado especial em minha vida.

Quando menino, eu passava pela calçada da fábrica retratada na imagem. Parava no portão e ficava olhando para dentro, exatamente na área onde aparece o caminhão. O cavalo, claro, não é da minha época.

Com as mãos apoiadas no portão, admirava as pessoas de uniforme branco, botas e quepe na cabeça, como soldados. Pensava: “Quando crescer, vou trabalhar nessa fábrica.”

Ali, onde o caminhão está encostado, ficava a Recepção de Leite, com seu teto em abóboda — invenção mesopotâmica difundida pelos romanos. Em frente ao cavalo, a janela do Laboratório. Logo atrás, as duas chaminés das Caldeiras: uma de tijolo, outra de metal. E, no alto do morro, o tratamento de água da cidade.

Aos 19 anos, realizei o sonho: comecei a trabalhar ali em 1º de dezembro de 1986. Foram anos de felicidade e aprendizado.

Mas em 2009 veio a missão mais difícil: ser o último colaborador da fábrica, que teria suas atividades transferidas para outro estado.

Não foi fácil apagar a luz do Escritório Técnico e perceber que não havia mais ninguém para me despedir. Os colegas partiram aos poucos, até que fiquei só, ocupando uma sala silenciosa. Andava pelos corredores e o silêncio gritava nos meus ouvidos.

O último dia foi o mais duro da minha vida profissional. Às 17h30, desci os dois lances de escada, caminhei pelo corredor e parei na portaria — no mesmo portão onde, menino, sonhara trabalhar. Dei a última olhada.

Senti um nó na garganta e parti, deixando para trás a segunda fábrica da Nestlé no Brasil: minha primeira escola profissional, minha segunda casa, meus sonhos, amigos e 24 anos de história.

O tempo passou. As lágrimas secaram. O sol voltou a brilhar.



Hoje, aos 50 anos, registro com orgulho que nesta data, 1º de dezembro de 2016, completei 30 anos de trabalho na mesma fábrica — um feito raro nos dias atuais, em Araras-SP.

Entrei solteiro, casei, tive filhos, e tudo isso aconteceu enquanto construía minha vida profissional nesse lugar que se tornou minha segunda família.

Alguns podem achar estranho permanecer tanto tempo na mesma empresa, em tempos de ansiedade e insatisfação constantes. Mas digo com convicção: não foi um fardo. Foi uma jornada recompensadora. Aprendi que a chave para uma vida profissional ética e satisfatória está em cultivar boa vontade, humildade, honestidade, respeito e o desejo de aprender todos os dias. Agindo assim, as dificuldades se tornam aprendizado, e o tempo nos devolve orgulho e fortalecimento.

O prazer de trabalhar não está atrás dos muros ou portões de qualquer empresa. Ele nasce dentro de nós, na energia que nos move e na satisfação de realizar um trabalho bem feito. Quem não percebe isso, infelizmente, não encontrará em lugar nenhum, por mais que procure.

Agradeço aos poucos "amigos" de Araras que me receberam e pela oportunidade de compartilhar tantos anos de convivência e aprendizado.


02/11/2016

Dia de finados antigamente



Hoje é feriado de 2 de novembro e acordei lembrando do significado desta data.

O tempo passa, os costumes mudam — ainda bem.

Quando criança, neste feriado, as famílias se reuniam no cemitério em torno dos túmulos. Era uma espécie de tributo para quem não sabia que estava sendo homenageado. Eu ficava ali, imóvel como um vaso, sob o sol, aguardando o fim das conversas intermináveis entre os adultos, para repetir o ritual no ano seguinte.

Parecia uma sala de estar improvisada ao lado do túmulo, onde parte da família se encontrava uma vez por ano, sem precisar ir à casa do outro.

Havia também a preparação do cemitério: árvores cortadas, grades pintadas, chão varrido. As famílias pagavam os coveiros para limpar ou pintar os túmulos, muitas vezes com tinta barata ou cal. Do lado de fora, flores, frutas e velas eram vendidas em ritmo frenético. Do lado de dentro, o povo se movia entre os túmulos sob o calor de novembro. No cruzeiro, velas acesas criavam um espetáculo deprimente, misturando cheiro de cera queimada, suor e calor.

Hoje não faria isso em hipótese alguma. Mas naquela época, era normal, e ninguém parecia aborrecido.

Agora, este feriado significa descanso. A gratidão, a saudade e os sentimentos que guardo pelas pessoas queridas permanecem silenciosos dentro de mim, sem necessidade de estar ao lado de um túmulo. Um dia, inevitavelmente, descansarei ali também.

23/10/2016

Por que escrever?


Estou há um bom tempo sem escrever. Acho que estou vivendo uma espécie de ressaca, mas sei que essa fase também passará, como tudo na vida. Ainda sinto prazer em rascunhar por aqui alguns pensamentos. Antigamente eu compartilhava o meu Blog na rede social mas percebi que os meus textos não despertavam interesse e por isso, deixei de divulgar, mas nunca perdi o interesse em escrever minhas bobagens.

Dizem que escrevemos por vários motivos:

- Para buscar um sentido na vida
- Para nos sentirmos vivos
- Para deixarmos algo para a posteridade
- Para tentarmos mudar o mundo

É claro que os motivos não se encerram nestes quatro exemplos citados e também não estou com vontade de prolongar. Escrevo porque sinto prazer e também para deixar algo quando eu não mais existir, mesmo sabendo que o que deixo aqui poderá não ter valor para ninguém. Por ora, contento-me em escrever apenas para mim, o que já é um bom motivo.


Bem, por hoje é só!